JANELA
"Os anfíbios são muito importantes porque atestam a saúde do ambiente. Se está bem preservado, tem anfíbios"
Carlos Jared pesquisador
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Sapo com três pernas traseiras, rã sem os dedos e perereca com membros encurtados. Uma pesquisa mostrou que deformações em anuros - os anfíbios citados acima - podem estar relacionadas à presença de agrotóxicos no ambiente natural dessas espécies.
O estudo realizado pela Universidade de Passo Fundo (UPF) indica também que as malformações são um risco para a preservação desses animais a longo prazo. O grupo já sofre com um decréscimo na sua população mundial.
Em março, a revista Science publicou artigo chamando a queda no número de anfíbios em escala global de catastrófica. São 501 espécies em declínio por causa de um fungo. Outras pesquisas estrangeiras também dão conta da contaminação do ambiente como causa dos problemas.
O trabalho da UPF estudou 1.674 indivíduos de 31 espécies de áreas de floresta, periurbana e rural, com plantação especialmente de soja e trigo, do norte do Rio Grande do Sul. As duas culturas, quando cultivadas de forma não orgânica como nesse caso, levam agrotóxicos, especialmente o glifosato. Diversos estudos feitos fora do Brasil já apontavam a toxicidade por glifosato para os anfíbios.
Segundo Noeli Zanella, uma das pesquisadoras e professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Ambientais da UPF, as deformações em até 5% das amostras podem ser consideradas normais. Porém, o estudo mostrou um resultado superior a 5% na área, o que é entendido um "hotspot", ou seja, um ponto crítico para a incidência dos problemas físicos.
Os humanos têm um bom motivo para se preocupar com o que acontece com os sapos. Esses bichos são indicadores ambientais, uma medida para saber se há equilíbrio ou desequilíbrio ecológico. "Os anfíbios são muito importantes porque atestam a saúde do ambiente. Se está bem preservado, tem anfíbios", explica Carlos Jared, pesquisador do Instituto Butantã e diretor do Laboratório de Biologia Celular.
Eles funcionam como um termômetro ambiental por causa da pele, que é altamente permeável. "Os anfíbios não têm essa capa de proteção de queratina ou quitina que nós temos e que outros animais possuem. Além disso, são dependentes da água. Se você colocar o anfíbio em ambiente sem água ele seca e morre", explica Jared.
É justamente a pele permeável e a dependência dos anfíbios da água a principal evidência da relação entre os agrotóxicos e suas deformações encontradas.
"Essa falta de proteção cutânea é grande. Qualquer medicamento entra. Por isso [o agrotóxico] é potencialmente um causador de problemas, sem dúvida. Pode ter acontecido", afirma o pesquisador do Butantã.