A medida em que o século XXI se desdobra, torna-se cada vez mais evidente que os principais problemas do nosso tempo não podem ser compreendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, portanto, interdependentes e decorrentes de um mundo superpovoado e globalmente interconectado.
Nesse contexto nossas universidades públicas têm múltiplas tarefas. Formar profissionais, absolutamente necessários, em áreas desprezadas pelo ensino privado por não serem lucrativas; lidar com um contexto social que muda de forma cada vez mais rápida; gerenciar custos crescentes com recursos cada vez mais escassos e ainda assistir sua autonomia ser ameaçada por políticos sem nenhuma familiaridade com a missão e os desafios de uma universidade pública.
Em decorrência da crescente maré de informações e ao avanço em todas as áreas do conhecimento, estas universidades públicas são desafiadas a fragmentar suas disciplinas em especialidades cada vez menores, num ritmo quase bacteriano. Por outro lado, precisam adotar um pensamento sistêmico e uma aprendizagem interdisciplinar, que inclui a comunidade acadêmica como um todo, demonstrando as interdependências e interconexões existentes entre tantos temas desafiadores e que até competem entre si.
As universidades públicas do Estado, ao promoverem uma formação crítica e verdadeiramente interdisciplinar, formam um profissional diferenciado. Jovens com este tipo de formação são cidadãos plenos, pessoas com compromisso para, na condição de agentes multiplicadores, ajudarem a transformar, em todos os aspectos a realidade deste País.
Vale destacar que, as descobertas científicas e a evolução tecnológica atingiram uma dimensão descomunal e uma complexidade inimaginável. Por isso, para produzir ciência, professores e pesquisadores precisam de laboratórios cada vez mais equipados e formar equipes que crescem cada vez mais, tanto que passou a ser comum vários coautores assinarem um artigo técnico. Na maioria das áreas, a tecnologia exigida para uma pesquisa de reconhecida qualidade ou uma descoberta científica se tornou muito mais complexa, demorada e principalmente, cara.
Diante de um País como o nosso, o conhecimento produzido nestas universidades precisa ir para onde precisam dele, portanto, deve estar a serviço da construção da dignidade da vida dos que clamam por segurança, saúde e trabalho. A sociedade clama por justiça e ética na política, na família, entre povos. Clama por educação de qualidade.
Estas universidades precisam ser vistas hoje como lugar da produção de uma riqueza cada vez mais escassa, a riqueza moral, dos valores, da convivência e do diálogo, da pluralidade ideológica e cultural, da crítica comprometida com a ética que busca ser verdadeira e justa.
Ao enfraquecer suas universidades e ao desmotivar seus professores, o Estado de São Paulo vai na contramão destes desafios e de um futuro autossustentável que passa pelo fortalecimento da educação e isso implica, inicialmente, na consagração do dever do Estado sobre o ensino público, laico, gratuito e de qualidade.