Certamente, você já viu esta cena mais de uma vez: uma criança, que talvez ainda nem tenha aprendido a andar, manuseia um tablet ou smartphone, com estímulo dos pais. Orgulhosos, eles imaginam que o contato precoce com tecnologias pode incentivar o desenvolvimento cognitivo infantil.
Um grande erro. Na verdade, a exposição excessiva de crianças muito pequenas a estes dispositivos tem preocupado a comunidade científica. Estudos internacionais recentes - e um inédito desenvolvido em Bauru (leia mais na página ao lado) - apontam que a interação precoce com telas portáteis eletrônicas pode causar atraso no desenvolvimento da fala dos pequenos.
Trata-se de um problema de grande escala, que tem levado muitos pais aos consultórios com suspeita até mesmo de que seus filhos possam ter autismo - o que acaba sendo descartado depois. Diante do risco iminente de prejuízos, a Sociedade Brasileira de Pediatria faz um alerta categórico: nada de tecnologia digital na mão dos bebês ao menos até dois anos de idade.
No Canadá, um estudo sobre o tema foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Toronto com 894 crianças entre seis meses e dois anos. A investigação, que durou cinco anos, revelou que 20% dos pequenos gastavam, em média, 28 minutos por dia junto a tablets e smartphones. E, a cada aumento de meia hora neste tempo diário, o risco de retardo na capacidade de expressão verbal aumentava 49%.
A psicóloga bauruense Juliana Bizeto explica que o esperado é que crianças comecem a formular as primeiras frases aos dois anos de idade e que, aos três, já consigam elaborar sentenças mais complexas. Porém, devido à superexposição aos eletrônicos, o aprendizado para a comunicação verbal, não raras vezes, tem sido prejudicado.
"Por conta do tempo excessivo diante das telas, a fala fica pouco demandada. Então, a criança começa a se comunicar por gestos, por exemplo, para pedir coisas. A tecnologia mudou muito a relação das crianças com seu entorno e isso acabou interferindo no desenvolvimento da linguagem", frisa.
AUTISMO
Professora da FOB/USP de Bauru, a fonoaudióloga Simone Lopes-Herrera comenta que não é raro receber relatos de pais preocupados com o desenvolvimento de seus filhos pequenos devido ao vocabulário precário e, em alguns casos, por dificuldades de interação. Nestes casos, a suspeita da família é quase sempre de autismo, porém, durante a investigação diagnóstica, as demais características clássicas da doença não são verificadas.
"Este atraso no desenvolvimento pelo contato excessivo com as telas é um fenômeno novo e não sabemos, ainda, qual é a proporção dele no Brasil. Mas esta demanda, de fato, tem chegado aos consultórios, em razão da falta da interação face a face com a família", detalha ela, que é especialista em linguagem e doutora em educação especial, com foco em autismo.