Articulistas

A cigarra e a formiga

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Organização. União. Formiga que se preze leva a vida a sério. Sem formigar, poupa centavos sem poupar preocupações. Pudera! Oscilações da Bolsa, aumento da taxa básica de juros, medidas do Banco Central, fundos de Renda Fixa, Previdência Privada, imóveis, extenuava-se e trabalhava sem parar. Sabia que todo o esforço investido, hoje, seria compensado com sua rentabilidade financeira vindoura. Dia nascendo, dia morrendo, bagas de suor turvo atestavam-lhe o sacrifício dilatado na sensação do dever cumprido. Um comprometimento silencioso - de quem compra pão às 6 horas da tarde - marcava, todo dia, o retorno à colônia. António Baptista tinha razão. Em tempos modernos, a formiga é a mais zelosa das executivas.

A cigarra conseguia deixar a formiga, com quem estudara no colégio, com rastro de raiva. Também, curtia a vida sem restrições. Gostava dos dias de muito sol só para ficar a sombra. Sabia tudo contemplar. As poetisas, vocacionadas a lembrar - quem fosse - que quando a vida escorresse em rugas, nossos olhos estariam brilhando na primeira pessoa do plural. As boêmias em estado de rascunho, prontas a passarem a noite a limpo. As cigarras da laje, no samba, suor e cerveja e, é claro, as roqueiras que de tanto tinto, prolongavam seus estridentes 125 decibéis. Para elas, cantar era a mais inebriante das sensações.

Subestimar a notoriedade de sua liberdade e o canto exitosos, impossível. Só se falava delas. As cigarras. 'Jornal do Inseto', 'Insetgran', 'Social Inseto'. Uma vitrine itinerante. É evidente que o esbanjamento e o sucesso alheios incomodaram as formigas. Não demorou muito para as formigas debocharem delas. 'Cigarra, você cantou e só aproveitou todo o verão. Mal poupou. Com a chegada do inverno, o que fará?'

A cigarra, com a naturalidade de uma criança que abastece de brincadeiras os momentos, responde-lhe. 'É verdade. Mas você não sabe da maior. Fechamos para este inverno um contrato com casas de shows em Nova York, Londres e Paris a cem mil dólares por apresentação...' A formiga, inconformada e desidratada de raiva, pede à cigarra uma gentileza. 'Quando chegar em Paris, procure um tal de La Fontaine e deseje-lhe que o diabo o carregue.'

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