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'Síndrome de Adão'

Renato Ghilardi
| Tempo de leitura: 2 min

Não sou de me vitimizar. Acho tal atitude totalmente contrária àquilo que mais creio como biólogo e que deveria ser o mote para crescimento individual de cada pessoa: a seleção natural. A adaptabilidade às condições do meio permite com que a espécie como um todo permaneça sem se extinguir ou, ainda, que surjam novas espécies.

O grande problema associado é que o ser humano sofre de uma "Síndrome de Adão". Estou trabalhando sobre esse tema e terei a oportunidade de escrever mais detalhamento sobre isso mas, de maneira simples, podemos entender essa "síndrome" como a não compreensão do ser humano de que ele faz parte dos processos biológicos que chamamos de Natureza. Isso pode se dever a vários fatores, mas o principal, acredito eu, é a mentalidade judaico-cristã extremamente exacerbada em nossa sociedade que nos faz querer, lá em nossa psique, voltar ao paraíso perdido.

Como temos inculcado essa necessidade de sermos imagem e semelhança à nosso "criador", não aceitamos de forma alguma que somos parte integrante da natureza. Achamos que somos divinos. E isso se reflete no modo que vemos o mundo. Como não queremos aceitar a perda do Jardim do Éden, não acreditamos que mudanças são normais e necessárias no processo natural. É a seleção natural sendo negada todo santo dia. Claro que temos que ter empatia e ajudar a quem necessitar mas não devemos negar que diferimos dos outros organismos do planeta apenas pelo fato de raciocinar e, portanto, sofremos dos mesmos processos naturais que todo o restante.

Por isso que odeio a vitimização: é um reflexo da negação da biologia. Mas hoje permitam-me, por favor, utilizar desse artifício retórico para expurgar uma fase de vida bizarra. Explico: eu, com meus quase 50 anos, convivo no meu trabalho com professores mais velhos que eu e que me chamam de "menino". Isso me perturba? Claro que sim. Mas o que mais me atormenta são as crias da Geração Y (Millennials) e Z que agora estão chegando ao mercado de trabalho e se acham capazes de auto-suficiência sem experiência além de não possuírem o mínimo de noção de respeito (apesar de vomitarem em seus coletivos a igualdade entre todos) e sofrerem a cada "não" uma crise de ansiedade.

Dureza ser um professor e perceber entre esses a falta de respeito e consideração à histórias de vida. Ainda bem; ainda bem que confio na seleção natural. Ela demora, mas não falha.

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