Tribuna do Leitor

Sesc jazz: oásis no deserto cultural de bauru

Ed Felicio
| Tempo de leitura: 2 min

Uma vez que este glorioso matutino não tem em suas fileiras um crítico para comentar os eventos culturais (e isso faz falta numa cidade em que essa área é gerida de forma vergonhosamente amadora pela prefeitura local), lá vou eu fazer uma breve resenha daquele que é o grande acontecimento de todos os anos: o Sesc Jazz Festival (de 16 a 20 de outubro).

Este ano, além de contar com a costumeira organização e atendimento de primeira, que deveria, reitero, servir de exemplo ao nosso arremedo de Secretaria da Cultura, tivemos a melhor programação desde a sua primeira edição. Com o amplo ginásio transformado num aconchegante night club, apresentou-se o lendário trompetista cubano radicado nos EUA Arturo Sandoval que, embora me parecesse desconfiado da reação do público (talvez ele esperasse uma plateia carioca), deu o seu recado num repertório diversificado que foi de seus temas latinos a Stevie Wonder.

A cantora inglesa Yazmin Lacey, com um timbre que lembra Gladys Knight, improvisou com classe sobre suas canções cheias de soul, para uma plateia infelizmente reduzida. Na sexta, o gaitista Maurício Einhorn, aos 87 anos, lenda viva da música instrumental brasileira, desfilou seus temas construídos sobre sofisticadas harmonias, mais que bossa-nova e jazz, um craque mostrando que ainda tem muita lenha pra queimar. Já o trompetista israelense Avishai Cohen trouxe seu grupo de jazz-rock, com destaque para Yonatan Albalak, cujo instrumento é um improvável baixo-guitarra, e do qual ele extrai sons do além, sem falar no inigualável suingue.

A grande surpresa, porém, foi no sábado quando se apresentou o tunisiano Dhafer Youssef. Além de tocar com total desembaraço o alaúde, ele canta e improvisa com uma voz que vai do tenor ao soprano, entoando temas melancólicos de alta intensidade, e nunca deixando de ressaltar suas origens árabes. Sua música, porém, vai muito além do que hoje se chama "etno-jazz". Espero que no ano que vem o Sesc repita a dose, trazendo novamente o oásis ao deserto cultural do noroeste paulista.

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