Fui a laboratório da Unimed apanhar o resultado dos exames, no dia 28/10 logo pela manhã, às 7h. Tenho retorno de acompanhamento com meu médico, dr. Diogo, no dia 04/11, uma rotina que passou a fazer parte de minha vida depois de uma crise, quase letal, de diabetes.
As atendentes aproveitaram o horário para comentar a folga do final de semana, em razão do dia dedicado aos mortos. Pensei com meus botões: um lugar que sugere falar da vida sendo invadido pelo assunto morte. Me animei e entrei na conversa. Gentilmente lhes disse: "Vamos transformar esse assunto fúnebre em poético" e concluí: "Fernando Pessoa se referia à morte como sendo uma grande curva no nosso caminho onde as pessoas que vinham atrás de nós nos perdiam de vista, somente isso".
Como notei que silenciaram para ouvir-me, continuei. Vocês já ouviram falar em mistanásia? Todas disseram que nunca tinham ouvido falar tal palavra ao que concluí. Essa é a morte que mais me assusta, pois está nos noticiários e faz parte do nosso cotidiano, na figura dos refugiados, na fome que assola várias regiões do nosso planeta é a "morte social". Não me espanta que não a conheçam, pois é relativamente nova. Foi usada pela primeira vez em 1989 por Marcio Fabri dos Anjos, na Argentina, e caracteriza a morte miserável, infeliz, precoce e evitável. João Cabral de Melo Neto já havia feito alusão a esse tipo de morte em sua magistral obra: "Morte e Vida Severina", ou seja, morte Severina nada mais é que a morte social no nosso nordeste "morte miserável, infeliz, precoce e evitável".
Peguei meus exames, me despedi e fui em direção ao estacionamento pensando sobre o tema. Já assisti a debates sobre o papel da eutanásia, ou seja, abreviação da vida alegando razões humanitárias, para evitar sofrimentos inúteis ou estado terminal e incurável. Me lembrei do prolongamento fútil e inútil da vida - a distanásia.
É evidente que o assunto me obriga a tomar uma posição. O ser humano não tem direito de invadir a obra divina da vida, por isso me posiciono pela ortotanásia, ou seja, pelas morte natural que deve ser regida pela bioética (vida com ética). Aí sim, com nossa obrigação de combater um contexto social injusto e plural tutelado pela defesa e promoção da vida humana infelizmente, difícil de acontecer na atual conjuntura.
Ah... que saudades do meu amigo Célio Gonçalves que, com certeza, se aqui estivesse diria: "Darcy, oremos!"