Tribuna do Leitor

De que fé estamos falando?

Benedito José Almeida Falcão
| Tempo de leitura: 2 min

O texto "Controvérsias à Respeito do Sínodo", do articulista Valmor Bolan (JC de 5/11), me parece bastante estranho e tendencioso. Ele começa enaltecendo a atitude de dois jovens norte-americanos que entraram em uma igreja em Roma e depois de retirarem de lá duas deusas pagãs, a atiraram no Tibre. E no final, passa a questionar o próprio Sínodo e posições da Igreja Católica. De início, parece que ele está falando da fé cristã, mas aos poucos seu discurso tangencia outras finalidades.

A princípio deve se ressaltar que a atitude dos norte americanos (como de costume), é uma afronta ao Vaticano que é uma cidade Estado independente. Por segundo, se formos levar a Bíblia ao pé da letra, devemos lembrar o vasto material condenando a utilização de ídolos. Assim, se a defesa daqueles jovens era o da fé genuína inspirada na palavra, poderiam ter aproveitado e retirado da igreja uma outra dezena de santos de gesso ou argila.

Não sou católico, mas respeito a religião católica, seus cultos e seus símbolos (ainda que deles discorde). Se as imagens ajudam nossos irmãos católicos na fé, devo respeitar. E o mesmo deve ser feito em relação a outros povos e outras religiões. O convencimento deve ser inspirado pelo Espírito Santo e alimentado pela palavra e pelo diálogo e não construído pela imposição intolerante e pelo uso do vandalismo ou da força.

Se para alguns, a imagem da Pacha Mamma parece coisa de gente atrasada, o que dizer do Círio de Nazaré com pessoas se espremendo e pisoteando, segurando uma corda? Quanto ao paganismo, vale lembrar que muitas datas e figuras hoje utilizadas pela Igreja Católica vem do paganismo, inclusive a data do Natal.

Será que ao invés de sermos iluminados por pessoas como o Papa Francisco, estamos regredindo? Será que voltamos a querer a velha Igreja Católica, a Igreja das trevas, da bula papal Super Illius Specula, do Malleus Maleficarum, da Inquisição, da Operação Odessa, da igreja que considerava os negros como animais sem alma e a escravidão como algo natural?

Mesmo sem ser católico, vejo no Papa Francisco um homem abençoado que trouxe a igreja católica a seus princípios puros de posicionar-se ao lado dos abandonados, dos excluídos, dos humildes.... como ensinou Jesus. Mas será que é de fé que o senhor Valmor Bolan está mesmo falando?

Ou será que essa fustigação que busca desacreditar a cúpula da sua própria igreja e em especial o Papa Francisco, traz sob o manto da fé, uma certa "ideologiazinha"? Aquela ideologiazinha que quer acabar com nossos índios e entregar a Amazônia aos posseiros do agronegócio e aos garimpeiros ilegais que infestam e destroem aquela região.

É, senhor Valmor, tem muita gente que brigou com a família, brigou com os amigos e agora está brigando com a igreja e até com Deus se for necessário... Gente que há muito tempo deixou de seguir os ensinamentos de Jesus, para prostrar-se e seguir cegamente outro Messias. Afinal, é de fé mesmo que o senhor está falando?

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