Que palavras esperar de um homem paraplégico desde 16 de setembro de 1972, quando, por pouco, não morreu em um acidente de carro e hoje, 47 anos depois, vive em uma cama hospitalar instalada em casa? Se o leitor responder "nem uma palavra ruim sequer" acerta em cheio. Esse é o radialista Joel Evans. Com um sorriso largo, olhos brilhantes e o vozeirão de locutor bem conservado até hoje, ele se define como um "otimista nato".
Jornal da Cidade - Sua esposa já havia nos dito que você nunca reclama, só tem palavras para o bem. É difícil acreditar. É isso mesmo?
Joel - Parece ser verdade mesmo (risos). Sou uma pessoa otimista. Nasci assim, já era assim antes mesmo do acidente. Se não está bom para mim, pego outro caminho. Sou da paz!
JC - Nasceu em Bauru?
Joel - Não, nasci em Três Lagoas (MS). Meu pai, ferroviário, foi transferido para Bauru quando eu tinha 4 anos. Moramos um tempo na Vila Pacífico e depois ele conseguiu comprar uma casa na esquina da rua Silva Jardim com a Santo Antônio. Foi onde me criei, uma infância típica, mas com o diferencial de que ali, no Bela Vista, nasceu a rádio PRG - 8 e depois o primeiro canal de televisão do Interior de todo o País, a TV Bauru, Canal 2. Projetos do visionário João Simonetti.
JC - Daí seu sonho de ser apresentador?
Joel - Sim, era década de 60, havia o programa (ao vivo), "Clube Juvenil", do saudoso radialista "Horácio Alves Cunha", a quem admiro muito. Mas não foi aí, na PRG-8, que comecei. Foi outro radialista ilustre quem me deu a oportunidade.
JC - Ah é? Quem?
Joel - Roberto Ivo Purini, na época na rádio Terra Branca, que ficava lá do outro lado da cidade, na Vila Pacífico. Uma pessoa fantástica, muito humana, coração de ouro. Já na PRG-8 eu vim a ser o locutor comercial do "Clube Juvenil". Depois, mais tarde, apresentei programas de variedades. Criei o programa musical "No Mundo do Cinema" e trabalhei também no Canal 2, onde era redator do noticiário regional. A gente viajava direto fazendo as entrevistas em cidades da região. Não tinha satélite (risos). Tinha que gastar sola.
JC - Joel Evans não é seu nome?
Joel - Na verdade, eu nasci Joel de Araújo, mas quando fui trabalhar com o Horácio Cunha, um grande cara, ele disse "esse nome não vai pegar" (risos) e me batizou de Joel Evans.
JC - Você chegou a fazer até cobertura de futebol.
Joel - Perfeitamente. Fui repórter de campo. Sempre tive um lado esportivo. Quando mais jovem, ainda no Bela Vista, joguei futebol (quem o conheceu diz que era um ponta-direito muito habilidoso), mas havia muitos adultos no time de lá. Os jovens não tinham vez, às vezes não éramos nem lembrados como "regra três" (risos). Daí, eu tive a ideia de nós, os jovens da Congregação Mariana do Jardim Bela Vista (Igreja de Santo Antônio), criarmos o time São Francisco. Fomos contemporâneos do lendário BAC - Bauru Atlético Clube. Demos muito trabalho (risos).
JC - Também foi bancário?
Joel - Sim. Tinha que garantir o sustento da família. Prestei concurso para o Banco do Brasil. Passei. Quando assumi, eu tive que ir a São Paulo. Lá também precisei de dois empregos e, acabei trabalhando na Rádio Marconi, um expoente à época, com gente da extirpe do Hélio de Aguiar.
JC - Seu hobby ainda é o rádio?
Joel - Adoro. Estou sempre antenado. Hoje, o radialista tem muito mais facilidades, né? No meu tempo, a gente tinha que "chupar cana e assoviar, fazer muito e ganhar pouco". E a televisão também mudou muito. Não tem comparação entre hoje e o meu tempo, onde era tudo improviso.
JC - Graças à internet, o universo se desvenda para você...
Joel - Já vou fazer 75 anos e não saio mais da cama de forma que o celular e a televisão são meus mundos. Gosto muito de ouvir música. Não tenho preconceito, embora prefira músicas lentas. Não sou muito do batidão, não. Minha rotina também inclui assistir novelas, virei noveleiro. Estou adorando "Avenida Brasil", que não assisti na primeira vez, a vejo todas as tardes. Na hora do noticiário, eu mudo para a Bandeirantes. Agora, com o celular, tudo ficou mais fácil. O mundo está a um alcance. Não reclamo. Tenho um lema que repito desde o acidente: "O importante é ficar vivo".
JC - Como foi o seu acidente?
Joel - Tive lesão medular, duas vértebras decepadas. Era 16 de setembro de 1972. Foi na Rondon, na altura do Santa Luzia (o trevo não existia). Estávamos voltando de Promissão, eu e a esposa. Já tínhamos um filho, o Joel Júnior, e por pouco ele não viajou com a gente. Na última hora, a Sueli resolveu deixá-lo com a babá. Teria sido fatal. Então, também tenho isso para agradecer.
JC - A recuperação foi difícil?
Joel - Foram três anos de internação, entre Bauru e São Paulo, inúmeros hospitais. Até que me admitiram na AACD (hospital referência de ortopedia). Lá, consegui a reabilitação, mas em cadeira de rodas. E voltei a trabalhar. Aqui em Bauru fui recebido de braços abertos no meio jornalístico. Já o Banco do Brasil imediatamente me aposentou. Eram outros tempos. Não havia programas de reinserção no mercado de trabalho como existem hoje. Uma das passagens marcantes da minha vida foi no Jornal da Cidade. Tinha acabado de cumprir meu turno quando aconteceu a explosão da Nações Unidas. E voltei para engrossar a equipe que apurou o caso.
JC - O acidente foi em 13 de agosto de 1976. Um trecho do asfalto da avenida (na altura do Senac) explodiu após a passagem da comitiva do general Ernesto Geisel, então presidente, e se cogitou um atentado, nunca comprovado...
Joel - Foi feio. Minha esposa estava me levando embora quando ouvimos o barulho e vimos aquela fumaça enorme, escura. Participar desse episódio da história foi marcante.
JC - E teve mais algum episódio marcante?
Joel - A entrevista com o Pelé. Foi sensacional. Eu já em cadeiras de rodas, mas conhecia o Dondinho e Dona Celeste, pais dele. O Santos veio jogar aqui contra o Noroeste e fiquei sabendo que ele veio antes. O encontrei em casa, deitado em um sofá, descansando. Tivemos uma conversa enorme, muito boa, sensacional. Me lembro bem que quando cheguei à Auri-Verde, o querido Sica (Silvio Carlos Simonetti) ficou orgulhoso e disse: "Ninguém nunca trouxe um material tão estimulante, uma entrevista tão longa, como essa que você me trouxe".
JC - E Auri-Verde era sinônimo de audiência à época.
Joel - E como! Fui para lá incentivado por um comerciante da cidade: o Joaquim Josino, dos Estofados Josino. E tinha 26 lances de escada para subir. Mas os amigos e funcionários foram muito generosos. E eu, com a minha cadeira e a ajuda deles, subia esses lances todo santo dia. Não posso me queixar.