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Um apelo de cem reais

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Faço um apelo ao ministro Marcos Pontes. As bolsas de iniciação científica do ensino médio para alunos de escolas públicas, concedidas pelo CNPq, estão sujeitas aos mesmos cortes e recolhimento que as voltadas a alunos de graduação e pós-graduação. São bolsas de cem reais mensais, vinculadas a projetos de pesquisa. Não são valores estratosféricos e nem deveriam estar sujeitos a contingenciamento.

Minha experiência como orientador de tais projetos foi suficiente para ver alunos ganhando prêmios ou seguindo a carreira científica, alguns hoje como doutorandos em programas de excelência. Ou mesmo ver o brilho em seus olhos ao estarem no mesmo ambiente em que se produz a melhor ciência e tecnologia do país. O senhor sabe bem a importância de tais estímulos. Basta se lembrar dos oito experimentos que levou ao espaço na Missão Centenário em 2006, sendo que dois eram de jovens alunos de escola pública.

São cem reais mensais, um pequeno valor para uma pessoa, mas de significado enorme para esses jovens instigados a estudar ciência além da sala de aula. Dinheiro que fará o estudante consumir um lanche melhor, adquirir um livro ou mesmo guardar para comprar um eletrônico desejado. Na Unesp são 270 bolsas de tal modalidade, cujo valor anual é de R$324 mil. A Reitoria conseguiu ainda atribuir 20 bolsas com recursos próprios. As demais universidades seguem valores proporcionais. O valor a ser recolhido é bem menor que isso, pois se refere aos alunos que concluirão o ensino médio no final do ano e não podem mais receber a bolsa a partir de janeiro de 2020. Não será possível selecionar os candidatos, pois as escolas e os professores estarão em férias. Falamos de jovens entre 14 e 17 anos, adolescentes para os quais não podem ser criadas expectativas que se frustrem no final do ano. Muitas dessas escolas públicas se localizam em regiões de extrema vulnerabilidade econômica e social.

O projeto envolve pelo menos um professor da escola pública que auxilia na seleção dos alunos e o docente universitário ou de instituição de pesquisa que recebe os jovens em seus laboratórios, bancando, muitas vezes, com seu transporte e refeição. Relatórios semestrais são elaborados e submetidos a comitês de avaliação. A produção científica resultante também é verificada. Cria-se uma armadilha para o sistema de ciência e tecnologia: bolsas não poderão ser atribuídas na virada do ano, serão perdidas e os pesquisadores serão questionados sobre sua competência, pois não puderam mudar o calendário.

É um apelo e não tenho melhores argumentos como cientista e educador frente aos economistas do governo. Mas o ministro da Ciência e Tecnologia tem!

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