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Quem vigia os vigilantes?

Eugênio Mira
| Tempo de leitura: 2 min

Em 1997, apenas alguns anos após juntar minhas primeiras letras, fui apresentado a um dos primeiros quadrinhos adultos e um dos mais importantes da história, "Watchmen", do inglês Alan Moore. Escrita no contexto da Guerra Fria, o surgimento de um super-homem azul desequilibra a balança das potências mundiais, criando um mundo diferente na prática, mas não tão diferente assim do nosso na teoria.

Vigilantes mascarados passam a fazer parte da história, combatendo criminosos sem nenhum tipo de controle externo, o que acaba provocando violentas reações sociais, e até uma greve da polícia, que se sente acuda e desestimulada a seguir seu trabalho de acordo com as regras que garantiriam à sociedade que as instituições que tem o monopólio da força são confiáveis e seguras. Em uma das imagens durante um protesto, alguém picha em uma vidraça: "Who whatches the whatchmen?", ou "Quem vigia os vigilantes?".

A frase é a tradução mais comum de um escrito do poeta Romano Juvenal e usada desde então para apontar os malfeitos de qualquer instituição ou grupo que tente, através da força, coibir e controlar a sociedade ao seu redor. No contexto da obra, os vigilantes são os heróis, mas quem conhece a HQ de Moore sabe que ele não fala sobre homens voadores e mulheres de colant. Sua história era um enredo sobre o processo de polarização que acontecia no mundo e do risco de uma tragédia nuclear. Através da alegoria dos super-heróis, Moore fala sobre como a concentração de poder estatal e o esmagamento de terceiras vias, sistemas moderadores e a própria vontade popular pode gerar tragédias, produzindo salvadores alienígenas e inimigos vermelhos que contemporizam do outro lado do continente para o fim das "pessoas de bem". Na obra, a população é um joguete manipulada entre uma mídia sensacionalista, um sistema jurídico acovardado e um governo egoísta e manipulador, que usa o poder para disseminar o medo e o ódio. Nenhuma novidade até aqui.

O que isso significa? Talvez nada. Um dos principais personagens da série original, Rorschach, tira seu nome do famoso teste psicológico onde um borrão de tinta é usado para que o paciente projete sua própria personalidade. Ao ler a série é normal que algumas pessoas identifiquem traços que lembrem nossa própria situação política e social. E elas estão mesmo todas lá. Watchmen é um desses desconfortos necessários em nossas vidas, um pisão no calo de uma sociedade que se acha moderna e conectada, mas tende a repetir os mesmos erros: Acreditar em salvadores, instituições pouco democráticas e polarização política como meios que justificam os fins. Ler Watchmen é sempre a sensação de se olhar para seus próprios medos e paranoias. No Brasil de 2019, olhar pro abismo do universo de Alan Moore nunca foi tão necessário.

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