Entrevista da semana

O dono do bordão "Uma Delícia"

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Dono de um bordão que está fazendo o maior sucesso, e se tornando referência, o jornalista Alexandre Colim conta um pouco de sua vida e de como foi em busca do sonho de ser comunicador. Em tempo: o bordão é a frase curtinha, "Uma Delícia", mas dita com muito destaque no delícia quando vai apresentar a receita da semana do programa "Agro Record". A ênfase faz com que o telespectador já fique com vontade de experimentar a receita deliciosa. 

Jornal da Cidade - Você tem sido bastante reconhecido pelo programa "Agro Record" que apresenta nas manhãs de domingo, na Record TV. 

Alexandre Colim - Este momento é um presente, um grande divisor de água. Uma virada de página. Não que eu não goste de apresentar, do "Balanço Geral". Gosto muito. Mas sou muito grato à Record que está me dando a oportunidade de me reinventar com esse novo programa, que tem um diferencial.

JC - Ah é? Qual é?

Alexandre - O entusiasmo com que a gente entra na casa das pessoas.  Há um ano e três meses posso exercitar o que gosto que é prosear...se estiver numa locação, um gato entrar quiser sentar no nosso colo, que sente, vamos brincar com ele, fazer um cafuné. Isso é o diferencial, é fundamental.

JC - Você cozinha?

Alexandre - Nnão cozinho nada. Nem dá para acreditar não é mesmo? Mas aí está a diferença. Eu quero saber como se faz, quero que me ensinem direitinho, daí o sucesso do quadro. É para a pessoa entender mesmo a receita e, se for o caso fazer ainda no almoço do domingo. Tudo muito gostoso. E quando vejo estou sendo chamado nas ruas como o cara do "Uma Delícia". Isso não tem preço. Quando alguém te reconhece e você vê sinceridade no elogio é muito gratificante.

JC - Como começou?

Alexandre Colim - Eu trabalhava na prefeitura de Arealva, onde me criei. Aos 25 anos havia uma inquietude em mim, faltava algo. Era início dos anos 2000. Pedi exoneração e fui fazer curso de radialismo no Senac em São Paulo. Uma comoção total na família. 'Como vai largar um emprego estável em busca de uma vida incerta?' me diziam. Mas eu fui. Morava no centrão de São Paulo, próximo ao Vale do Anhangabaú. Dali até o Senac Lapa era uma viagem. Foi bem puxado.

JC - Foi a grande escola?

Alexandre - Aprendi muita coisa, muita história humana para contar. Admiro essa grande escola que sempre foi o Rádio AM. Mesmo antes de trabalhar em comunicação eu sempre tive grande admiração pela fluidez com que os locutores se expressavam. E de improviso. Convivi com tanta gente boa e que admiro. Citar um poderia ser uma injustiça com outro. Melhor não (risos). Mas digo que tanto na rádio quando na televisão tenho muitos amigos e há grandes apresentadores a quem admiro muito mesmo.

JC - Você fez grandes sacrifícios para trabalhar na área?

Alexandre Colim - Para mim as coisas nunca foram fáceis. Só acontecem com muito trabalho e sacrifício. Houve um momento em que para me  manter trabalhando aqui eu tinha o apoio dois empresários que patrocinavam os programas que eu fazia. Um era dono de posto de gasolina (ali eu garantia a locomoção) e outro de churrascaria (garantia minha comida). Nessa época tudo o que eu tinha era um Golzinho 92 dado pela minha mãe. 

JC - É um lutador...

Alexandre Colim - Tenho uma característica a perseverança, a resiliência, nunca desanimei não. Já tomei muito tombo na carreira, foram uns 4, pelo menos (risos).

JC - Você passa uma paixão pelo que faz...

Alexandre Colim - Sempre fui movido pela paixão pelo que faço. Se não me apaixonar pela reportagem, não vai dar certo.  Não consigo me desvencilhar disso. Preciso me apaixonar pelo que vou contar, eu gosto de uma boa prosa, de entrar na história e se for preciso até me indignar. Minha filha, Maria Clara, nove anos, fala "puxa pai você é igual quando está dando bronca aqui em casa" (risos). E é verdade, sou muito transparente e verdadeiro. 

JC - O JC teve acesso a uma foto dela, entregando uma medalha para você, num jogo de futebol no Bauru Tênis Clube onde você ainda bate uma bola. 

Alexandre Colim - E faço academia, me cuido para poder jogar, se a gente não quer ter lesões, tem que estar em forma para poder brincar de jogar. Gosto de jogar com a 9, centro-avante, sou daqueles que fica ali esperando uma oportunidade para fazer o gol. Desde jovem tive um primo, Luiz Carlos, que era meu ídolo...jogador profissional do XV de Jaú, da Ponte Preta. Mas deixo claro nunca tive o talento dele. 

JC - Seu time preferido?

Noroeste, sempre fui torcedor da maquininha vermelha (até por ter sido repórter) e Palmeiras pela influência do meu pai.

JC - A propósito, para alimentar a polêmica já que o assunto é futebol...(risos), o que acha do Neymar? Ainda será o melhor do mundo?

Alexandre - Defendo o Neymar sim. Não concordo com todas as críticas a ele. E se você olhar a trajetória do CR-7 , o Cristiano Ronaldo verá que só se consagrou a partir da idade que o Neymar tem hoje. Então, é na maturidade que ele vai conseguir se consagrar. Acho que falta só isso, um foco maior porque talento ele tem de sobra, é diferenciado. Sonho com a redenção dele. Acho que tem tudo para essa redenção ocorrer como no caso do goleiro Marcos, na época da seleção que só mais velho virou o "São Marcos".

JC - O rádio lhe deu muita experiência para narrar o "ao vivo"?

Alexandre Colim - Quando estava na Record em São Paulo (nessa segunda ida à capital fiquei de 2007 até 2015), essa experiência de rádio ajudou. Mas tive muitos jornalistas como espelhos. (Novamente não dá para citar um e deixar outro de fora). A Record foi uma das pioneiras na entrada de helicóptero e narração ao vivo. Inventou a narração do fato no momento em que acontecia, mas ao contrário do que muita gente imaginava eu não ficava no helicóptero.

JC - Ninguém acredita nisso, né?

Alexandre Colim -  Eu ficava numa cabine numa emissora e ia vendo a entrada das imagens feitas pelo cinegrafista e ia narrando o que ele transmitia. 

JC - Teve um momento marcante?

Alexandre Colim - Quando numa madrugada chegando na Record em SP entre 5 e 6 da madrugada, a CNN começa a mandar para a gente imagens do tsunami no Japão (março de 2011) e você tem que narrar aquelas ondas de 60 metros de altura, uma avalanche quase que inenarrável, levando tudo, varrendo tudo, corpos sendo levados com casas, edifícios inteiros. Isso foi impactante. 

E tem muita história triste?

Nunca mais vou esquecer o dia 10 de fevereiro de 2010. Da cabine eu tive que narrar a queda do helicóptero da TV Record (no gramado do Jockey Club) que acabou com a morte do piloto Rafael Delgado, meu amigo. A bordo também estava o cinegrafista Alexandre Moura, o Borracha, que foi retirado com vida . Narrar a morte do meu amigo foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira. Nesse dia foi pesado demais. 

E como você analisa o momento da comunicação, a internet e a televisão?

Com a internet parece tudo mais fácil de fazer TV. Não é bem assim. Na verdade aumenta a responsabilidade, porque o que vem de fake news, de mentira, não está escrito. Eu acho que o futuro do jornalista está justamente aí em apurar com ênfase, com credibilidade e, é um perigo a maioria porque boa parte das pessoas difunde informações que chegam pela internet como se fossem a mais pura verdade. Eu mesmo tenho a minha mãe, aos 73 anos bastante bem-informada, está atuante nas redes sociais e volta e meia ela me aciona para checar uma ou outra notícia. A maioria fake news. Agora, imagina quem não tem um filho jornalista, quem não entende de apuração (risos?).

Como vê o futuro nessa área?

Então, eu acho que algo tem que ser feito nesse sentido e o público precisa separar joio do trigo, ficar com veículos confiáveis. Nossa legislação, nesse sentido, vai evoluir muito ainda. Eu mesmo já fui vítima de uma  inverdade. Logo que saí da Record-SP e eu pedi demissão (havia uma reestruturação e prejuízo financeiro para mim) um colunista de televisão (não é o caso de citar o nome dele aqui) disse que eu havia sido mandado embora. Não era verdade. Nunca foi. Eu pedi para sair. Essa é a verdade. Eu quis voltar para cá.

E como vê seu futuro jornalístico?

Continuar na área. Ir em frente. Gostaria de ter feito muito mais, claro. E e espero continuar tendo chances palpáveis de progredir pra eu continuar sentindo prazer em fazer o que eu faço, com muita paixão e muita verdade.

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