Vivi dois anos na Alemanha, no início dos anos 90, para fazer parte de meu doutorado em química, oportunidade que devo a meu orientador brasileiro Ulf Schuchardt, mais pelo estímulo do que pelos contatos que ele possuía, apesar de ser alemão de origem. A necessidade de internacionalização já se fazia presente e foi uma excelente experiência para mim.
No entanto, nunca pensei em não voltar para o Brasil ou planejar um dia viver no exterior em definitivo. A permanência de dois anos era o tempo necessário para aprimorar o aprendizado científico, aproveitar a possibilidade do uso de técnicas que não conhecia, aprendeu um pouco da cultura europeia e entender que não existe melhor local para se morar do que o próprio país. Hoje a situação não é tão clara e cristalina como àquela época e a opção por transferir minha pesquisa científica para o hemisfério norte passa a ser uma alternativa interessante e, infelizmente ouso dizer, até necessária.
Fruto de uma realidade bem distinta, com clareza e sinceridade, o colega químico Alex S. Lima, em artigo de um mês atrás na Folha, mostrou a dura realidade do desmonte da estrutura de ciência e tecnologia no país e suas já evidentes consequências ao declarar sua saga "do desejo de ser cientista à 'fuga' da mão de obra". Não apenas jovens como ele estão buscando alternativas no exterior, como também pesquisadores de minha geração passaram a considerar essa possibilidade. Foi árdua a construção de um sólido sistema que combina a formação de recursos humanos na pós-graduação com a consolidação de grupos de pesquisa. Sua destruição, no entanto, aconteceu em alguns meses.
O Canadá é um país que está oferecendo tais oportunidades, claro, não como ato humanitário, mas interessado na mão de obra extremamente qualificada que foi formada aqui no Brasil ao longo de décadas de bom trabalho das agências de fomento à pós-graduação (Capes) e à pesquisa científica (CNPq, no âmbito federal). Sistema, repito, que está sendo destruído sem qualquer escrúpulo. Já denunciamos tais descalabros neste espaço, e a comunidade científica está mobilizada para tentar salvar o que ainda restou, mas, como em todas as outras esferas do governo federal, parece que não há quem admita ou se revolte contra a situação para buscar uma solução. Continuo no Brasil, mas já não sei até quando.