Os minhocuçus eram colocados dentro de um saquinho de pano umedecido, não podendo faltar água para a hidratação deles, que se uniam enrolados em forma de bola. Naquela posição espremida e sem alimento, resistiam uma semana. Encomendamos de um criador dessa espécie de isca, de Sete Lagoas, uma dúzia de minhocuçus. Ficou ajustado que a isca viajaria de ônibus, salvo engano da Viação Motta, percorrendo a linha Belo Horizonte-Bauru e que a encomenda seria deixada na venda de passagens da estação rodoviária local em determinado dia e por volta das 6h.
Prontos para iniciar a longa viagem, passamos pela estação rodoviária para receber a isca e fomos surpreendidos com a informação que os minhocuçus seguiram viagem para Presidente Prudente, pois constava em documento da empresa que o destino era aquela cidade. E daí? O que fazer? Questão discutida e resolvida na hora: rumo à Presidente Prudente. Diante do incidente, ao invés da viagem seguir pela rodovia Marechal Rondon, rota mais próxima de Porto Esperança, fomos atrás das iscas por outra estrada. Na estação rodoviária de Presidente Prudente mais um imprevisto. Os minhocuçus foram transferidos para outro ônibus com destino à Campo Grande, pois era o que constava em documento da empresa, informado por funcionário. Em relação ao ônibus, estávamos atrasados meia hora de modo que essa diferença de horário possibilitava que a caminhonete alcançasse o ônibus ainda na estrada, onde a remoção das iscas ocorreria. Mas houve erro de cálculo e ao chegarmos na estação rodoviária de Campo Grande, encontramos os perseguidos minhocuçus na cabine da empresa, vivos, graças aos motoristas dos ônibus manterem a embalagem de pano úmida.
As iscas foram acomodadas no piso do banco da frente da caminhonete depois de receberem mais um banho no saquinho para suportar o que porventura faltou na viagem de ônibus e, também para resistir mais 550 k de estrada. Um companheiro havia levado uma garrafa de aguardente comprada em um dos alambiques de Lençóis Paulista. Gostava de dar uma boa talagada antes do almoço. A garrafa ficou junto dos minhocuçus, sem causar desconforto as pernas do passageiro. Apesar dos percalços, a viagem até Campo Grande seguiu num ambiente de companheirismo, melhor ainda seria terminá-la com as iscas recuperadas, mesmo porque, sem elas a pescaria de peixe de couro estava comprometida. Logo depois da passagem sobre a ponte do rio Miranda, a cabine da caminhonete foi tomada por um aroma forte de caninha. A rolha da garrafa de pinga saiu do lugar despejando o líquido no assoalho do veículo, atingindo em cheio o saquinho de minhocuçus. O companheiro, dono da garrafa, tentou salvar primeiramente o aguardente. Agindo com rapidez, tapou a garrafa conseguindo estancar a fluidez do líquido. Com o sucesso de seus movimentos, empunhou a garrafa e exibindo seu troféu aos companheiros, bradou a antiga máxima "mais vale um pássaro na mão que dois voando", acrescentando que se primeiro socorresse os minhocuçus embebidos na pinga, todo o conteúdo da garrafa se perderia com o irrecuperável prejuízo da compulsória abstinência durante a semana da pescaria. Somente na chegada ao rancho em Porto Esperança é que a situação das minhocas foram constatadas. Estavam vivas, mas não resistiram a intoxicação causada pela embriaguez. Todas sucumbiram no dia seguinte e tiveram de ser substituídas por outras iscas oferecidas pelos piloteiros. Mesmo sem o a isca predileta do peixe de couro, pusemos em prática o plano B, com a pescaria de pacu rendendo razoavelmente. Um dos companheiros, no primeiro dia de pescaria de pacu, embarcou cinco deles, quantidade superior a soma dos peixes fisgados pelos demais. Entusiasmado com o rendimento de seu desempenho na pesca, no jantar daquele dia propôs aos companheiros que o peixe embarcado pelo pescador a ele pertencia, revogando uma antiga regra verbal dispondo que no final da pescaria os peixes formavam um acervo que seria dividido pelo número de pescadores. A sugestão foi, por unanimidade, recusada. O segundo dia de pescaria foi madrasta para o companheiro que pegou algumas piranhas e nenhum peixe de carne nobre, enquanto a sorte mimoseou os demais com alguns pacus eirados. Nos dias seguintes, o quadro não modificou e o companheiro foi o pescador menos sucedido. Na noite anterior a viagem de retorno, durante a arrumação das malas e tralhas, alguém perguntou ao companheiro se ainda desejava partilhar os peixes da forma que propôs, ouvindo um solene não, seguido de uma marota gargalhada.
Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, pescador aposentado