Entrevista da semana

Apaixonado pela música e pela vida

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Aos 42 anos, o maestro Devanildo Balmant, ou simplesmente maestro Deva, como é chamado, está vivendo uma fase agitada, mas muito bom e especial na vida: acaba de se tornar pai pela terceira vez. O pequeno Mateus nasceu no dia 26 de novembro e veio se juntar aos irmãos Danilo, de 7 anos, e Tiago, de 3 anos. 

O músico vive também um ótimo momento no campo profissional: é, desde 2018, o maestro da Banda Sinfônica Municipal, cargo que exerce concomitantemente com o de professor de música da Banda do Colégio São Francisco (Rede Sagrado) e o de educador musical da Banda do Projeto Guri.

Generoso com seus colegas de trabalho e ex-professores - a quem só tem elogios - e com a própria vida, ele faz questão de agradecer pelo caminho trilhado até agora, em 19 anos de profissão como músico.

Nesta entrevista, o maestro Deva conta um pouco da sua trajetória, que incluiu muitas outras profissões antes de, finalmente, se descobrir de vez na música.

Jornal da Cidade - Como foi seu primeiro contato com a música?

Maestro Deva - Na minha infância, ainda lá em Gália, na fazenda onde morávamos, havia um senhor que tocava acordeon. A lembrança mais viva que tenho era dele desmontando para limpar. E eu saí de lá antes dos cinco anos. Para mim, era um instrumento mágico em um momento mágico de tentar entender como aquelas peças se encaixando soltavam um som tão bonito. Acho que ali começou a sedimentação do que eu seria.

JC - Daí estudou música na infância?

Maestro Deva - Na verdade, não. Morávamos numa fazenda em Gália, onde meu pai, Aristão Balmant, trabalhava. Ele tinha consciência da importância do estudo e veio para Bauru para que eu pudesse estudar. Não queria que o filho único ficasse na roça, achava que não dava futuro. Éramos humildes, mas, como marceneiro, nunca deixou faltar nada. Mas, tive que, além de estudar, trabalhar. Fiz parte do Cips (Consórcio Intermunicipal de Promoção Social, que, além do estudo, encaminha jovens para o trabalho, no estilo do jovem aprendiz, hoje em dia). Fui ter contato com a música mais na adolescência, um pouco mais velho.

JC - E como foi?

Maestro Deva - Precisei fazer aquele famoso 'vestibulinho'  para entrar no Ernesto Monte. E, ali, havia uma banda famosa. Fui começar para valer lá, no Colegial. 

JC - Daí já se decidiu a ser músico?

Maestro Deva - Embora tudo indicasse para isso, sabe que não (risos)? Até na carreira militar, na 6.ª CSM (Circunscrição do Serviço Militar, do Exército), havia uma vaga para corneteiro e eu fui aprovado. Não me lembro de quantas vezes executei o Toque do Silêncio (clássica música de celebrações fúnebres), mas me recordo de uma passagem bem interessante lá.

JC - Conte...

Maestro Deva - Veio o general de Exército, comandante Aquino, se não me falha a memória, e havia um toque especial para esse tipo de autoridade. Eu executei enquanto ele passava em revista à tropa e ele chegou na minha frente e estendeu a mão. Eu fiquei ali, estático (risos). Não sabia o que fazer, se apertava a mão dele, se prestava continência (risos), se tocava de novo... havia toda uma formalidade, foi bom e constrangedor (risos). Mas, no fim, ele disse que nunca tinha visto a melodia tão bem entoada. 

JC - Depois dessa você foi ser músico, claro?

Maestro Deva - Fui nada (risos)! Prestei vestibular para História. Passei na Unesp, em Assis. Mas não consegui ir por questões financeiras. Fui cursar Química, aqui mesmo. Trabalhei anos em uma loja de tintas, mexer com essa mistura me fascinava. O próprio Ernesto Monte tinha dois laboratórios, de Biologia e de Química, que eram excelentes à época. Com professores também muito bons. Aliás, eu trabalhei em muita coisa na vida.

JC - Não dava para imaginar, então, que você seria um maestro?

Maestro Deva - De fato, não. O pai da minha mãe Cícera, meu avô materno, Antônio Vieira da Silva, tinha vindo de Alagoas e tinha um armazém, tipo bar de secos e molhados, na Vila São Paulo. Trabalhei até no balcão no bar dele. Aliás, fazendo um parênteses, cresci em um ambiente de caldeirão cultural e religioso, muito bom.

JC - E, na profissão, você rege concertos ecumênicos, não é? 

Maestro Deva - Sim, a música é universal. Minha família era uma parte católica, outra protestante. E me lembro até de uma tia que era do candomblé, tocava lá seus atabaques e não havia nenhuma crítica por parte de ninguém. Tudo era encarado de forma muito leve, suave. Todas as vertentes sempre se respeitaram. Sempre tivemos a consciência de que essas diferenças fazem parte da vida. Eu me criei na Assembleia de Deus e, hoje, sou da Batista Betel.

JC - Mas e quando a música entrou de vez? Sempre há um divisor de águas...

Maestro Deva - Sim, nunca mais vou esquecer! Foi quando tive oportunidade de conhecer o Conservatório de Tatuí (um dos melhores do mundo), ver os ensaios de profissionais. Na primeira vez que fui lá, fiquei em êxtase. Não acreditava. Sabia que era para mim. Recebi o apoio de toda minha família. Com sacrifício, acabei me formando em trompete erudito. Só de ter aulas com gente do naipe de Oscarindo Roque e Gilberto Siqueira, para mim, foi demais. Acabou que deu tudo certo.

JC- Isso foi há quantos anos?

Maestro Deva - Anos 2000. Estou na área musical há 19 anos. E dela não saio (risos), se Deus quiser. Adoro o que faço e gosto também muito de ensinar. Me descobri professor.

JC - Fazer o que se gosta é essencial, não é?

Maestro Deva - Sim, é um privilégio. E ter quem te incentive também. Aqui, em Bauru, tem tanta gente que me ajudou, mas por uma questão de justiça, tenho que enfatizar a presença da maestrina Sônia Berriel. Ela é uma grande incentivadora. É muito vivaz, está terminando um projeto e já pensando no próximo. É uma mulher muito especial. Eu brinco que ela é a minha mãe na música.  Aliás, tenho o privilégio de conviver com mulheres especiais. A minha mãe; minha sogra, Raquel Tiroel; minha mulher, Priscilla, que é demais, uma guerreira.

JC - Qual a profissão dela?

Maestro Deva - Assistente social. Trabalha na Fundação Casa, lá em Iaras. Ela é mesmo uma fortaleza. A gente não esperava este terceiro filho. Foi praticamente um milagre. Mateus é um fruto do sinal de Deus. Meus filhos são uma bênção divina. Uma semana antes de ela fazer uma operação delicada do útero, descobriu-se a gravidez. Imagina, não tínhamos a menor ideia. Ela tinha tomado um monte de remédios fortes. No primeiro momento, foi o pânico, ansiedade, mas, agora, é agradecer: amém, amém e amém. 

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