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Maldito achismo

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 2 min

Consta no dicionário que "achismo" é uma "teorização fundada no subjetivismo do 'eu acho que' (aplicável a qualquer campo teórico)". Em geral, o que define seus adeptos é a empáfia de não acatar argumentos científicos ou filosóficos. Se eles "acham que", o assunto está resolvido. Logo, o achismo demanda forte inclinação narcisista, a fim de que se possa reconhecer nas próprias patacoadas uma verdade absoluta, acima de critérios de validação externos e impessoais. Como dizia Salomão, "tudo é vaidade".

Achistas, ao se depararem com uma ideia, não avaliam jamais se ela é verdadeira ou falsa a partir da lógica universal. O que lhes importa é se concordam ou não com a ideia, e isso é definido a partir do único instrumento legitimador que reconhecem e aplicam indistintamente a tudo: o "eu acho que".

O achismo é uma praga de todos os tempos e culturas, verdadeiro obstáculo em nossa marcha civilizatória. Na política gera autoritários, ameaçando a dialética e a democracia; na ciência produz a negação do método científico ou a fraude dos resultados; nas relações sociais leva à generalização superficial da realidade e ao "bom mocismo" teórico de gabinete, próprio dessa gente barulhenta e inútil que nunca aplica a si mesma suas teorias salvadoras do mundo e nem sai a campo para aplicá-las aos outros; na religião produz as doutrinas radicais e as superstições intolerantes que, ao longo da história, implicaram tantas mortes, sectarismos, perseguições e infelicidades; na educação introduz o adestramento "politicamente correto" que não aceita argumentos técnicos e nem mesmo a enfática obviedade dos fatos.

Onde quer que se instale o achismo atua como um parasita, drenando a força viva do intelecto até fazê-lo sucumbir e ingressar no estado de putrefação conhecido como dogma.

É preciso reconhecer, no entanto, que os apelos psicológicos do dogma fazem dele um grande sedutor: em primeiro lugar, traz a segurança das "certezas" para quem não tem coragem de reconhecer e lidar com as próprias dúvidas, razão pela qual é um porto seguro para os covardes; ademais, o dogma prescinde de estudos, testes, argumentos e todas essas formalidades, de modo que lhe basta o argumento infantil e mimado do "é porque é", sendo, portanto, o paraíso dos preguiçosos e irresponsáveis.

O fato de o achismo ser tão apelativo e consonante com nossos instintos primitivos me leva a "achar que" é uma doença intelectual destinada ao atravanco perpétuo de nossa evolução. Contudo, espero que esse meu achismo, como são quase todos os outros, seja apenas mais uma tolice, e que, no fim, a humanidade chegue a um tempo em que a fagulha divina da razão, da qual somos os únicos detentores na face deste planeta, prevaleça sobre a vaidade narcisista, a covardia, a irresponsabilidade e a preguiça intelectual que trazemos de nossos estágios primevos e que insistem em nos jungir às nossas origens bestiais.

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