São quatro os pilares que o ergueram e o sustentam. A família, os ensinamentos do taekwondo, a convivência com os escoteiros e a formação profissional na Edusc - que, inclusive, o levou a fundar a Editora Canal 6. Esses são os fatores que o publicitário Carlos Eduardo Vieira Fendel, de 40 anos, aponta como suas principais influências na vida.
Junto à esposa Erika Canal Woelke, ele mantém, há 14 anos, a editora, que já superou a marca de 2 mil títulos publicados, sendo mais de 100 de escritores bauruenses, como Irineu Bastos, Gabriel Pelegrina, Rosa Leda e Luiz Vitor Martinello. O objetivo: democratizar a publicação de livros. De acordo com ele, qualquer pessoa ou empresa que tem vontade publicar é bem-vinda.
Nesta Entrevista da Semana, a vida de Carlos vira um "livro aberto", com as histórias que mais marcaram a sua trajetória. Confira, a seguir, os principais trechos:
Jornal da Cidade - Você é bauruense, certo? Em que bairro cresceu?
Carlos Fendel - Eu sou. Minha família é de imigrantes alemães e espanhóis. Meu avô veio fugido da Primeira Guerra para Santos e chegou em Bauru na década de 50. Minha família sempre morou na região do Cardia, onde estou até hoje.
JC - Desde a infância você já tinha proximidade com os livros?
Carlos - Na verdade, sempre gostei muito de desenhar. Lembro que me esforçava para fazer os meus trabalhos de escola muito bem feitos, com apresentação diferente. Já na hora de escolher uma faculdade, eu quis Desenho Industrial, na Unesp, mas acabei não passando. E, nessa época, eu já trabalhava na Edusc, que era a editora da USC.
JC - Foi lá, na Edusc, que conheceu o dia a dia de uma editora?
Carlos - Sim, sai da Edusc depois de passar por todos os departamentos da editora. Também nessa época abriu a primeira turma do curso de Publicidade e Propaganda na USC e eu entrei. Aí, em 2005, eu e mais dois sócios montamos a Canal 6.
JC - Por que esse nome 'Canal 6'?
Carlos - Bom, no início, eram seis pessoas que abririam a empresa e Canal é o sobrenome de uma delas. No final, já tinha feito a identidade visual do negócio quando ficamos em três sócios. Depois, um deles optou por sair e eu me casei com a outra sócia, que é a que tem o sobrenome Canal, e ela já era minha namorada nessa época.
JC - O que os motivou a abrir a editora?
Carlos - Na Edusc, mais de dois terços dos materiais que chegavam não eram publicados. Eu via isso e pensava: muita gente quer publicar um livro e não consegue. A gente montou a Canal 6 para dar a possibilidade de mais pessoas publicarem. Sem a necessidade de ser um 'Paulo Coelho', mas de quem tem vontade de contar a sua história.
JC - Quantos livros já foram publicados pela Canal 6 até hoje?
Carlos - Temos mais de 2 mil títulos publicados, sendo que mais de 100 são de bauruenses, como, por exemplo, Irineu Bastos, Luiz Vitor Martinello, Lauro Neto, Mauro Progiante, Janira Fainer, Valdeir Vidrik, Ju Machado, Rosa Leda, Gabriel Pelegrina, entre outros. Além de publicar para a Academia Bauruense de Letras, o Grupo Expressão Poética e o Grupo Oficina da Palavra.
JC - Tem algum livro que te marcou?
Carlos - Difícil. É quase ter que falar qual filho que se gosta mais. Cada um tem sua história por trás da publicação. Tivemos um sucesso grande com um livro do bauruense Beto Braga, "O Brasil através das três Américas", que foi até motivo de entrevista no Programa do Jô. Mas uma história que marcou foi a de um autor que se alfabetizou após os 50 anos e queria ter um livro publicado. Quem não sabe disso, vê apenas mais um livro, mas a história por trás é o que marca. É muito gratificante, isso traz serenidade.
JC - Você acha que essa é a essência do seu negócio?
Carlos - A gente nasceu com o propósito de fazer livros para as pessoas. Mas nem tudo são flores. Até meados de 2015, 2016, chegou a crise e quebramos. Foi, a partir daí, que redefinimos a editora, diversificamos o mercado e criamos os selos. Inclusive, o Semeando Autores, que atua junto às escolas da cidade, para que os alunos tenham experiência literária desde cedo, com a publicação de seus livros.
JC - Pensaram em desistir na crise?
Carlos - Muitas vezes, as pessoas colocam a culpa na crise. Hoje, eu vejo que eu quebrei por incompetência. É como se eu morasse ao lado de um córrego e, depois de uma chuva forte, minha casa fosse levada. A culpa foi da chuva? Eu assumi riscos, claro que a crise os atenuou, mas aprendi a buscar capacitação em outros aspectos do negócio. Pensamos em desistir, mas fomos tendo resultados. Hoje, página virada. As coisas têm dado certo.
JC - E, além da empresa, você e sua esposa também têm uma filha. Como é a relação dela com os livros?
Carlos - Sim, a Luisa tem 9 anos. Levamos livros para casa, ela gosta de ler. Perguntamos sobre o que ela entendeu da leitura, porque é preciso ter interpretação e não só ler. Mas a Luisa já gosta muito de desenhar e nós a incentivamos bastante. Ela fala que quer ser desenhista.
JC - E o que faz no seu descanso?
Carlos - Gosto muito de fotografia e da parte de mecânica de carros. Também gosto de fazer exercícios físicos, acho importante. Sempre digo que quatro coisas me influenciaram muito na vida: a família; o taekwondo, mais especificamente o professor Mauro Hideki Fujyama, que sempre valorizou muito a disciplina; o Grupo de Escoteiros Guia Lopes, que fizeram diferença com as pessoas que participaram; e o profissional, a Edusc, que foi uma escola excepcional.