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A felicidade gosta de calendário

Roberto magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Estamos correndo. E isso é tudo o que sabemos. Nada mais. Nem mesmo, para onde. Mal espocou o tiro da largada, nossas pernas ganharam velocidade assustadora. E daí? Não sabemos aonde ir ou chegar. Feito explosão de manada, desembestamos cegos pela noite escura. Nenhuma meta, nenhum destino, apenas a adrenalina idiota de continuar correndo.

Exaustos estamos, mas correndo. O coração infartando, mas correndo. Tropeçando em corpos inertes, tombados pelo chão, mas correndo. Esfarelando relações de família e de amizade, mas correndo. Vendo a vida escorrer pelos dedos, mas correndo. Para quê? Por quê? Para onde? Até quando? Inútil questionar. Pernas competitivas apenas correm, definham e morrem, correndo. Ignoram questionários.

Nem sempre foi assim. Num tempo em que os relógios não tinham tanta pressa e os bolsos conviviam bem com o dinheiro curto, fizemos promessas. Prometemos amor ao próximo.

Dar sentido nobre à vida. Prender o perigoso ego em jaula segura. Cobrir o mundo com um lençol branco de paz. Fazer a ciência e a tecnologia trabalharem para a felicidade de todos. Manter as cadeiras nas calçadas, vizinhos, pipoca e suco de groselha. Prometemos tanto e só o contrário aconteceu. É isso que dá prometer. Promessas gostam do amanhã, esquecemo-nos do hoje. Quem não faz, adia.

Foi então que Ele chegou dizendo coisas que lamberam nossos ouvidos. Que nos faria fashion, Chanel, Burberry, Dolce & Gabbana, Guess... Que garagem que se preza guarda BMW, Mercedez, Ferrari... Que comprássemos a revista Caras só pra saber como é que é. Que metêssemos a cara e o sorriso escancarado nas baladas mais refinadas, nos eventos mais sofisticados e, se nossas pernas para tanto não dessem, que nos contentássemos com as redes sociais. Cada um sabe o tamanho do passo que tem. Numa jogada espetacular de marketing, Ele nos enfiou a faca até o cabo: fez com que uns atiçassem nos outros a coceira do consumismo competitivo. Seríamos felizes e amados, desde que déssemos crédito ao cartão. Viver, então, reduziu-se a garantir lugar na vitrine.

Agora choramos o leite derramado, a morte das utopias. O mundo nem de longe é o que queríamos que fosse. Frustrados e desencantados, a cada final de ano jogamos toda a responsabilidade no bebê do Ano Novo. No calendário que nasce, tudo será diferente.

Contamos, hoje, com a mais apurada tecnologia de comunicação, a interconectividade abraça o mundo, no entanto a má sociabilidade e a solidão só fazem aumentar o consumo de pílulas. Antidepressivos, ansiolíticos, soníferos, narcóticos, substâncias psicoativas...

Está difícil dormir. Está difícil manter o equilíbrio emocional. Está difícil controlar a ansiedade. Está difícil viver! É o que dizem as estatísticas de suicídio.

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