Bauru é cercada por áreas com fundos de vale, mas de que forma a cidade vem tratando esses espaços? Mais do que responder a essa questão, o arquiteto Ryller Chrystian de Andrade Veríssimo, de 23 anos, se preocupou em propor alternativas para valorizar e transformar em produtivos estes espaços. Em um projeto arquitetônico, o então egresso da Unisagrado apresentou trabalho envolvendo uma fazenda urbana no fundo de vale da divisa entre os bairros Jardim Prudência e Vila Industrial. No final do ano passado, a proposta foi vencedora do 3.º Prêmio Rosa Kliass, um dos mais importantes no País.
A premiação é promovida pela Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap), em parceira com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/SP). A cerimônia de entrega ocorreu no Hotel Nobile Dowtown em São Paulo, com a presença da Rosa Kliass, consagrada arquiteta-paisagista brasileira, e da presidente da Abap, Luciana Schenkde. "Foi muito gratificante ser reconhecido por ter feito o que gosto tanto. É um estímulo para continuar projetando e idealizando uma cidade mais desenvolvida de forma sustentável no futuro", cita Ryller.
A seleção para o prêmio considerou aspectos futuristas e o ineditismo da proposta, intitulada "Agri-culture 2050: Urban Farm e Urban Forest nos fundos de vale, um modelo possível de desenvolvimento e autossustentação do futuro". Basicamente, espaço urbano e natureza se conectam de forma harmônica.
Seis torres de cultivo são interligadas por estruturas que transpõem o Córrego da Grama, na região em que fica o atual armazém da Ceagesp. O local também possui uma passarela ondulada para que pedestres possam circular melhor entre os bairros.
"Andei a pé naquela área para estudar. Não há passagens por lá. Hoje, a pessoa precisa se dirigir até uma avenida que nem calçada oferece para atravessar os bairros. A cidade é cercada por fundos de vale que, assim como este, estão isolados do restante do município", observa o arquiteto, hoje pós-graduando em Planejamento Urbano e Políticas Públicas na Unesp de Bauru.
TORRES DE CULTIVO
E as torres de cultivo que cercam o espaço funcionariam como fontes de renda para famílias locais. Diferentemente da agricultura tradicional, a produção não dependeria de terra. O cultivo seria feito com uso de canaletas com água captada da chuva, semelhante ao sistema hidropônico. "A água é fertilizada por meio do excremento dos peixes", detalha Ryller.
"Com essas seis torres produzindo hortaliças, vegetais, pequenas árvores, entre outros, seria possível alimentar 10 mil pessoas no ano. Além de economizar 90% de água na produção, é algo que evitaria custos com transporte também, porque no local é previsto um complexo com um mercado agrícola", explica o arquiteto.
Apresentado originalmente como Trabalho Final de Graduação (TFG), em 2018, o projeto teve a orientação da professora Lilian Nakashima.
Além do prêmio citado, Ryller participou de concursos internacionais também, como o "Archathon", maior workshop archdesign das Américas, e foi finalista em duas edições da competição, entre centenas de arquitetos e designers do Brasil.