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Coincidências

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O vídeo em que Roberto Alvim copia frases de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista, teve ampla repercussão na Alemanha. "Coincidências", conforme tentou justificar o ex-secretário nacional de Cultura, são comuns no universo da criação. Nem todas, claro, tão nocivas e bizarras.

Ficou conhecido, e não faz muito tempo, o caso da "semelhança" entre o livro "Max e os Felinos", do escritor gaúcho Moacyr Scliar, já falecido, e "A Vida de Pi", do canadense Yann Martel - que, inclusive, chegou a fazer agradecimento ao brasileiro por ter sido "a semente da ideia" de sua obra. Não reconheceu plágio.

O livro de Martel virou filme, com o nome "As Aventuas de Pi", e faturou nada menos do que onze indicações ao Oscar de 2013, faturando quatro estatuetas. Scliar morreu em 2011 - e não ganhou nada com isso. Dizem que, bem antes, o livro "A Sucessora" (1934), da escritora e tradutora carioca Carolina Nabuco, meio que inspirou "Rebecca" (1938), da britânica Daphne du Maurier. "A Sucessora" virou novela global por aqui e "Rebecca" se tornou filme com assinatura de Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. Mais: assim como "As Aventuras de Pi", teve iguais onze indicações ao Oscar e, vejam só, ganhou como melhor filme - isso tudo em 1941. Filha de Joaquim Nabuco, Carolina morreria quatro décadas sem nunca ter desfilado pelo tapete vermelho de Hollywood.

Na música, então, melhor nem começar. Há uma profusão de letras e melodias "inspiradas" em outras. Alguns episódios são de difícil defesa. Jogue aí no YouTube "Unpublished Critics", da banda Australian Crawl, lançada lá na terra dos cangurus em 1981, e compare com o sucesso mundial "Sweet Child O' Mine", dos americanos do Guns N' Roses, de 1987. Gêmeas.

E se James Taylor lançou "Something In The Way She Moves" em seu primeiro álbum, em 1968, George Harrison, que ajudou o colega de Boston a se projetar, aproveitou para pegar "emprestada" essa frase inteira e com ela abrir sua majestosa "Something", hit dos Beatles do ano seguinte. Aliás, um hit eterno. Ah: a primeira frase desse artigo não é minha. "O vídeo em que Roberto Alvim copia frases de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista, teve ampla repercussão na Alemanha" é da jornalista Mônica Bergamo. Pelo menos eu admito: não foi "coincidência".

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