Tribuna do Leitor

Vamos conversar?

Psicólogos Claudinéia Pedroso Fernandes, Luiz Carlos Canêo, Salete Xavier São Bernardo e Selma Issa Gandara Vieira
| Tempo de leitura: 5 min

O famoso sociólogo e filosofo polonês Zygmunt Bauman nos apresentou relevantes considerações sobre as principais características da sociedade contemporânea, por ele sintetizada como "tempos líquidos". Em se tratando do relacionamento entre os humanos, acredita na absoluta incapacidade de se manter relacionamentos afetivos duráveis, transformando tudo o que um dia fora solido, com forma definida, em relações fluídas. Para ele, os "relacionamentos escorrem pelos dedos". A única certeza permanente é a mudança continua e a incerteza, a única certeza, conclui. Vivemos, portanto , numa sociedade liquida, considerando-se que o estado liquido sofre mudanças constantes e não conserva a sua forma original por muito tempo. Tudo o que era duradouro passa a ser efêmero. Assim a sociedade se assemelha ao estado liquido da água por ser vulnerável e fluida, não mantendo as suas características e solidez por muito tempo. As relações humanas são, portanto, frágeis em sua maioria, passageiras, superficiais e voláteis. Desintegra-se, assim, a solidariedade em decorrência das relações serem efêmeras. Antes as pessoas se conheciam, conversavam mais, se cumprimentavam de maneira presencial. Agora, vivem mais para si, de maneira solitária, iludidos com as suas vidas paralelas nas redes sociais. Os verbos mais conjugados talvez sejam: apagar, esquecer, delatar, bloquear, excluir. Perdeu-se o sentimento coletivo, pois vivemos em rede, mas não em comunidade. A família, na sociedade liquida, tornou-se uma categoria quase extinta. Não é mais referencia de vida em comunidade, muito menos de amparo afetivo. Em se tratando dos mais velhos, a chamada "terceira idade", especialmente no Brasil é tratada, não raras vezes em suas famílias (quando se tem), com desprezo, descaso e negligencia também do poder público. Ser idoso está associado a estar doente, ser incapaz, inútil. Poucos se interessam por ouvir as suas necessidades, suas histórias, seus anseios. Se para o adulto é muito difícil manter a sua qualidade de vida nesse mundo tecnológico e globalizado, da para imaginar as dificuldades que o mais idoso tem para viver de maneira minimamente satisfatória, considerando-se que nasceu e foi criado numa época com menos fluidez que o tempo atual. Hoje em dia temos muitas informações ao mesmo tempo, novidades e mudanças de padrões a toda hora. Como nas famílias, muitas vezes, os laços afetivos vão se liquefazendo, os "mais idosos" geralmente ficam excluídos dentro da própria família, por não apresentarem respostas "adequadas" a esse mundo atual. Diferentemente de tempos mais antigos, hoje os "mais velhos" também são solicitados a seguir padrões determinados pelo mercado para que possam superar sua condição de inativos e, ao não cumpri-los, vivenciam outro tipo de exclusão com novo adjetivo - fracassado.

A sociedade liquida é uma sociedade essencialmente consumista e individualista, sendo que o desenvolvimento tecnológico muito contribui para essa situação. Consumir passou a ser a centralidade da identidade humana. Cada vez mais é valorizado o TER em detrimento do SER. Ao se viver como ávidos consumidores por bens e marcas tudo se transforma em mercadoria reciclável e a identidade fica associada ao poder de consumo. Acreditamos que somos porque consumimos. A vida na sociedade liquida é uma vida precária, pois na condição de consumidores acríticos vive-se pelo e para o consumo, nos alerta Bauman. Somos clientes e mercadorias que usamos e consumimos relacionamentos humanos. Lembra-nos o estudioso que vidas são desperdiçadas pelo fato de não poderem consumir, configurando-se a condição de excluídos, afetando a autoestima, autoconfiança e o sentimento de pertencimento social. Vivem como se expulsos estivessem do mundo globalizado, em processo de perpetuação da solidão. A liberdade humana é ilusória transformando os seres humanos em espectadores e não protagonistas de suas próprias vidas.

É comum o uso indiscriminado de antidepressivos e a busca incessante pelo entretenimento como forma de afastar a angustia, solidão e o vazio existencial, levando as pessoas a um estado de desanimo quanto a dias melhores.

É sempre tempo de lembrar que somos seres relacionais. Precisamos investir na força do diálogo e da convivência para que possamos recuperar a nossa humanidade. Nos dias atuais temos o celular, whatsapp, e-mail e, cada vez mais, nos relacionamos menos de maneira presencial, apesar de conectados em rede o tempo todo. É provável que estejamos desaprendendo a nos relacionar com o real, pois vivemos imersos no virtual. Que tal reaprendermos a magia do contato olho no olho para vivenciarmos a experiência da empatia? É pelo dialogo que podemos ultrapassar os limites do individualismo e construirmos relações de trocas entre os saberes de cada um que, com certeza, nos tornarão humanos de qualidade superior. Como seres inteligentes e vocacionados que somos para a autonomia e liberdade, é possível fazer um saudável enfrentamento resgatando a nossa consciência critica para que, com os olhos bem abertos, possamos VER por nós mesmos, mantendo as nossas mentes abertas para aprender e os nossos corações abertos para poder sentir. Simples assim? Sim, simples assim! Basta, para tanto, investirmos nas infinitas possibilidades que nós, seres humanos, temos para sermos melhores a cada dia, aprendendo e ensinando motivados pela certeza que o protagonismo é de cada um de nós.

Como psicólogos voluntários, criamos o projeto Dedinho de Prosa - Conversas que Promovem Saúde - como uma simples possibilidade do encontro entres seres humanos que ainda acreditam na força e na magia de um encontro e de uma boa conversa. É nosso objetivo promover espaço de reflexão sobre as questões humanas, onde o estar com o outro, aprender com o outro e a partir do outro, considerando-se a fala e escuta sensível é a condição para a ressignificação de saberes e experiências individuais.

Para maiores informações consultar o facebook dedinho de prosa ou entrar em contato com Rocheli - secretaria de marketing digital pelo telefone (14) 998766874.

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