Aos domingos nos reunimos em um bar para jogar conversa fora, enquanto esperamos pela hora do almoço. Depois de uma e outra "latinha gelada", eis que se une ao grupo o último retardatário, que relatou ter acabado de presenciar uma cena inusitada e começou a nos contar a história. Um caminhão descia a rua quando um cão irado começou a latir indo em direção à roda de maneira furiosa; parecia muito incomodado com aquele movimento circular.
Notava-se seu desejo de destruir, corria pela rua sem o menor temor querendo pegá-la, chamando atenção de todos. Até que ao chegar na esquina, numa parada obrigatória, o cão se aproximou da roda preparando o ataque. Quando se viu a um passo de tudo aquilo que desejava, olhou para os lados e se deu conta que todo mundo o observava com olhar de reprovação... só esperando a porcaria acontecer.
O cão, muito esperto, retirou-se com a cabeça erguida... Como se não quisesse pegar a roda. Empolguei-me com a história e disse que também tinha uma. Num país chamado... Somos todos fortes; cujo ano tem apenas dez meses e a estrutura da pirâmide social possui a base achatada e a ponta extremamente estreita.
Por alusão à ponta estreita da pirâmide, o uso salto à Luiz XV identificava a nobreza. A corte é arrogante e severa, não perdoa o menor deslize; quando por pequeno descuido tocam na liturgia... hááá!... Não tem perdão... Não tem diplomacia, é açoitado em praça pública para que todos vejam que na sociedade fechada é assim, já está pré-estabelecido o tipo de contato que cada indivíduo pode ter com membros de outras castas.
Recentemente, nesse país, o Rei observou movimentação estranha nas lavouras, pois soube que souberam que havia chovido muito em várias hortas. Incomodado, quis bisbilhotar e com o salto à Luiz XV à mostra preparou a devassa, esquecendo-se que o mundo é um grande "big brother social".
Quando se viu a um passo de tudo aquilo que desejava, olhou para os lados e se deu conta de que todo mundo o observava com olhar de reprovação... Só esperando a porcaria acontecer. O Rei, muito esperto, retirou-se com a cabeça erguida... como se não quisesse saber em que horta havia chovido. Aí, quem se empolgou foi um companheiro de mesa. Levantou-se e com uma das mãos apoiou na cadeira e com a outra segurou firme a décima primeira "latinha gelada", e com a voz sonolenta protestou: Protééésto!... Ééésa históóória não é do cão e a roda... ééésa históóória... é a históóória da raposa e as uvas! Então percebi que era hora de ir para casa almoçar e encarar aquela sardinha com molho de manteiga queimada, afinal, quem não tem cão caça com gato!