Tribuna do Leitor

A culpa é de quem?

Benedito José Almeida Falcão
| Tempo de leitura: 2 min

(Resposta à carta do sr. Cesar A. T. de Carvalho datada de 26/01/2020)

Sr. Cesar, talvez o maior problema do Brasil seja perdermos tempo procurando culpados para tudo, sem enxergar que a resposta está na nossa cara. Ora"a culpa é dos negros e suas cotas nas universidades", ora "a culpa é dos nordestinos que são preguiçosos e não sabem votar", ora "a culpa é dos indígenas que ocupam áreas produtivas", ora "a culpa é dos pobres que não se esforçam"... e por aí vai... Entretanto, a culpa é de toda a sociedade, ou ao menos da parte dela que se fecha em seu egoísmo e não se preocupa com os problemas da Nação, desde que não os afete diretamente. Afinal, "por que vou me preocupar se as crianças não tem escola, se posso pagar os melhores colégios para os meus filhos?"

Há ainda aqueles que se escondem num falso patriotismo, resumindo as mazelas sociais às próprias posições políticas afirmando que "a culpa é do socialismo, onde todos tem acesso, mas são nivelados por baixo". Ainda bem que países como a Dinamarca não acreditam nisso. A Dinamarca é capitalista, mas o ensino é de ótima qualidade e acessível a todos. E é por isso que a Dinamarca tem um dos maiores IDH do mundo, enquanto nosso sistema tupiniquim fracassa independentemente de quem esteja no poder... Não somos capazes de nos enxergar como Nação e embora lotemos as igrejas aos domingos, somos incapazes de um olhar humano e cristão para com nossos semelhantes...

Assim como o senhor, sr. Cesar, eu também venho de origem humilde e hoje me sinto realizado. Justamente por isso vejo o quanto a negação ao ensino, vem sendo utilizada como ferramenta de exclusão social. E para se contrapor a essa desigualdade, há mais de doze anos, junto com um grupo de amigos e familiares, minha esposa e eu criamos a ONG "Sementes do Bem", para financiar o estudo de crianças oriundas de famílias de baixa renda, mas com grande potencial. E isso tem dado excelente resultado, com alunos aprovados na Unesp e CTI e um no Bauru Basket. Em nossa ONG, sempre acreditamos na meritocracia, mas aprendemos na prática que, só podemos cobrar bons resultados daqueles a quem oferecemos condições de competir. Não se colhe o que não se planta.

É por isso que precisamos urgentemente rever conceitos e por em prática um pouco do cristianismo e do patriotismo que pregamos ou dizemos defender. Tenho comigo a convicção de que, muito mais que títulos, textos e teses precisamos de ações concretas pelas nossas crianças, se almejamos um dia ser grandes não só em dimensão, mas em estrutura e conteúdo. Afinal, em uma sociedade, quando um perde, de alguma forma, todos nós perdemos.

 

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