Se um português disser que determinado lugar fica longe, não acredite. Pois longe, em português de Portugal, parece significar perto. De fato, num país com 218 km de largura e 561 km de comprimento, nada é realmente longe - ao menos não no sentido como os brasileiros entendemos o termo.
Pequeno, mas imenso de histórias. Histórias traduzidas em sabores, um excelente fio condutor para conhecer Portugal.
Do norte para o sul do país, a alimentação vai ficando mais leve, mais mediterrânea. A tradição de comida pesada e gordurosa da parte superior do mapa está ligada ao trabalho no campo, sob clima frio. Come-se batata e arroz, e antes havia um costume mais arraigado de consumir castanha. O vinho acompanha essa lógica - no norte, toma-se uma bebida que "pinta o dente", dizem os portugueses.
Trás-os-Montes é bom exemplo da culinária do norte. Região de gente em geral mais sisuda do que a costa, ela fica a cerca de duas horas do Porto, depois da Serra do Marão. Ao atravessar um túnel de quase seis quilômetros, tem-se uma vista arrebatadora e a impressão de ter sido transportado para outro mundo.
"Pra cá do Marão mandam os que cá estão", diz um ditado local. Vê-se à mesa. É um lugar onde se come menos peixe e mais carne, notadamente do gado da raça mirandesa e do porco bísaro. Pratos por vezes servidos com arroz malandrinho, caldoso a ponto de ir escorregando e fugindo para a mesa.
Bragança, já colada à fronteira com a Espanha, é a cidade de mesmo nome da dinastia que inclui a família real portuguesa que veio para o Brasil no século 19, fugindo da invasão napoleônica. Região mais tolerante, abrigou grande número de sefarditas, os judeus ibéricos, que muito contribuíram para o progresso da ciência e da culinária local.
Deve-se a eles o surgimento da alheira, linguiça de pão que lhes abria caminho para a integração social sem representar desrespeito ao veto à carne de porco do judaísmo.
Está ali a igreja de São Vicente, onde, segundo a tradição, teria ocorrido o casamento secreto de Pedro e Inês de Castro, história de amor que marcou Portugal e acabou de forma trágica, com a morte dela em Coimbra a mando do pai dele, que era o rei - episódio que deu origem à expressão "Inês é morta".
Típica dessa área é a castanha portuguesa, um fruto sem glúten que resulta em derivados doces e salgados. E, claro, o vinho da vizinhança. Com sua técnica de plantação em encostas, a área do Douro supera, em volume produzido, as demais regiões vinícolas do país.