Depois do café da manhã
quando terminares de espantar de vez
este resto de sono que ainda zonzo balança o teu corpo
escreva na pele dos olhos
embriagados das mesmas manhãs de ontem ou anteontem
o que depois copiarás na folha do caderno de estudos
e acharás por bem de chamar de verso
ou qualquer coisa parecida
mas se depois de amanhã
esse mesmo caderno dissolver as palavras
e no sol da tarde seu corpo
apenas gastar-se nas ruas esperando a noite
deixe-se nos caprichos soturnos
desse mundo de sombras e vento e luzes fugazes
porque na mesma pele dos olhos
onde as palavras ensaiam os primeiros olhares
o noturno que te assombra os pensamentos
há de te explicar o que é uma estrela
sem se quer arriscar o brilho dela
sem desperdiçar os dias da semana
porque o comboio do poema
é só um segundo antes das coisas.