Manhãs destas, ouvindo o tradicional e conceituado programa 'Atualidades', da FM 94, dirigido pelo meu amigo e irmão Netão, este manifestou o seu espanto e, por não dizer, incredulidade, quando ao noticiar edital do município de Bauru para admissões de algumas categorias funcionais, dentre as quais constatou a de professor substituto, com vencimento de R$ 1.360,00. Não comentou, porém, a entonação de sua voz disse tudo o que passava em sua mente. "Nossa!" Infelizmente, é isso mesmo, querido Netão. Como consolo, substituamos as palavras vergonhosa e absurda que, instintivamente, nos viriam à mente pela expressão "muito triste!". Ressalte-se que a diferença salarial entre o substituto e efetivo não é muito grande.
Adianto-lhe, no entanto, que esse baixo salário não é pontual, exclusivo de Bauru, mas ocorre em 90% dos 5.570 municípios do Brasil, sendo esta a situação atual, pois antes da Lei Federal N. 11.738/08, excetuando as regiões sudeste e sul, nas demais os professores recebiam menos do que um salário mínimo. Indiscutivelmente os baixos salários do professor em nosso país, tanto nas esferas federal e estadual como municipal, todos recorrentes, são mais históricos e culturais do que econômicos. O professor nunca teve a merecida consideração muito embora voz comum e uníssona seja a de que grandes vultos de nossa história e do presente como juízes, médicos, pesquisadores, presidentes e governadores passaram por suas mãos, fosse professor de uma humilde escola rural ou pública de algum lugarejo ou grande cidade. Comumente ouve-se falar de que antigamente um professor ganhava bem como um juiz de direito. Não é verdade porque principalmente o então professor do ensino primário sempre ganhou mal mesmo depois de instituída a carreira do magistério em São Paulo. Além dele, diretor de escola e inspetor mesmo concursados mediante a realização de exames todos foram mal remunerados, haja vista os proventos das aposentadorias. Ao longo de minha carreira de 35 anos, sobrevivi dando conforto à família, graças à soma dos dois vencimentos, meu e da esposa, e muitos "bicos", vendendo coleções de livros, posteriormente, escrevendo e lançando 14 edições minhas. Após ter exercido por período de quatro anos o mais alto cargo do ensino de Bauru e região, os proventos de minha aposentadoria pouco ultrapassam meia dúzia e alguns trocados. Em verdade, desde os tempos coloniais o professor nunca foi valorizado, muito embora sua importância fosse poeticamente citada e reconhecida. Pela solidão e desamparo no exercício de sua profissão nos mais longínquos lugares, distante da família, por sua abnegação e amor ao aluno, o exercício do magistério era considerado um sacerdócio, apreciação mais acentuada e comprovada hoje em dia pelo corre-corre diário e pela violência a que está sujeito. No passado os alunos ficavam em pé quando o professor entrava na sala de aula. E, infelizmente, hoje na escola pública, direta ou indiretamente, corre imprevisíveis riscos físicos e materiais quanto mais adiantada sejam as séries dos seus alunos.
Netão, meu querido amigo e irmão, nos fatos reais e irreversíveis que eu cito a seguir você, certamente, haverá de convir comigo de que toda a sociedade que não valoriza a educação e seu agente o professor não logrará o desenvolvimento desejável; de que não existem milagres em educação; de que nenhuma tecnologia dispensará o professor porque ele é eterno e insubstituível assim como um pai e uma mãe o são. E com esta máxima; o futuro de uma nação, seja qualquer ela, será ditado pela educação do presente. Não é preciso ser adivinho; a gente pode antever o futuro avaliando a educação do presente. Obrigado, irmão Netão, pois a inflexão de sua voz naquele momento motivou-me para esta publicação. O meu respeito e abraço ao trio do "Atualidades".