Este acontecimento insólito, ocorrido na década de 1990, veio ao meu conhecimento narrado pelo seu protagonista, o aposentado da Cesp Milton Tocchetto. A pescaria havia sido das melhores. Milton e seus amigos Clóvis e Sidnei, desfrutavam a alegria de passar uma semana no confortável rancho de um estimado amigo nosso, o meu xará Fernando dos Reis Monteiro, também ex-Cesp - que confirma o ocorrido -, quando iniciou-se a "epopesca" (uma mistura de epopeia com pesca). O rio Aquidauana corta a região em direção ao Pantanal e, precisamente no município de Dois Irmãos do Buriti, Estação Palmeiras, próximo da hospitaleira cidade que empresta seu nome ao rio, ficava o rancho do amigo Fernando. O local é um convite à aventura e a época escolhida não poderia ter sido melhor: abundância de peixes, sol o tempo todo, uma festa para não se esquecer jamais. Realmente, essa viagem ficou para sempre na memória dos três companheiros. Bastou alguns dias de pesca para que a grande arca de madeira, revestida de isopor recebesse 12 pacus e três pintados de bom tamanho, além do gelo picado. Bateu a saudade de casa. Marcaram a saída para a madrugada do dia seguinte, rumo a Bauru. A carreta acoplada à possante caminhonete F400, sustentava o peso de um belo barco de seis metros com o motor 15, velho companheiro. Completando a carga, dentro do barco estavam a caixa com os peixes, varas, molinetes, lanternas e demais objetos utilizados na pesca. Uma lona preta bem amarrada cobria tudo aquilo.
Chovera um pouco durante a noite, o que provocou, devido ao calor, uma intensa neblina. O sol ainda dormia quando se puseram a rodar de volta para casa. A volta de uma pescaria nunca é alegre e festiva como sempre é a ida, porém, o sucesso de ter capturado bons espécimes justificava aquele clima de euforia. O toca-fitas em alto volume reproduzindo belas músicas sertanejas e o ronco do motor da F400 enclausuravam de tal maneira aquele trio de pescadores que o mundo lá fora ficava distante, quase despercebido e ocultado ainda mais pela neblina. Aí, veio a infeliz lembrança! - Caramba, Clóvis, não lacramos os peixes! - É mesmo, rapaz do céu! Nesta altura da viagem, estavam pertinho de Campo Grande, a bela Capital de Mato Grosso do Sul. No pátio do Posto de Fiscalização do Ibama, enquanto Clóvis e Sidnei cochilavam no veículo, Milton desceu para providenciar a pesagem e o lacre dos peixes. -Boa-noite, seu guarda!- A gente esqueceu de lacrar os pei.... - Espera um pouco, eu passei por trás da caminhonete.... - Cadê a Carreta? Clóvis! Sidnei! Meu Deus! Perdemos a carreta! O guarda-florestal não sabia se ria ou chorava, sem nada entender. Bateu o desespero no coração de nossos pescadores. - E agora? - Nosso barco, motor, os peixes, as varas, dá para acreditar? (o pior é que dava!) - desabafou Clóvis, quase chorando, descendo da caminhonete e acariciando o engate prateado, já sem uso, onde pendiam fios e tomadas quebrados.Voltaram como loucos, vistoriando, sob a luz dos faróis, cada palmo da estrada em busca de vestígios da infortunada carreta. Nada encontraram. Ocorrera pois, que no sacolejar do veículo por causa do asfalto remendado e disforme da pista, o engate soltou-se e a pesada carreta, mudando de direção, continuou viagem, "voando", literalmente, numa velocidade espantosa pela ribanceira abaixo. Não respeitou as moitas de capim nem os pequenos arbustos que insistiam em não lhe dar passagem.
Atropelou tudo! Sabe-se lá onde teria parado! Adeus barco, motor, molinetes, varas e os belos peixes! Ao Milton Clóvis e Sidnei, inconformados, só restou voltar para Campo Grande e fazer um Boletim de Ocorrência. Na delegacia, para humilhar ainda mais nossos azarados amigos, havia um simpático feirante de origem japonesa que, ao saber do fato, não se conteve e, mostrando todo o seu sotaque oriental, com ar de deboche, emendou: - "Isso ingaraçado, né? - Bom para sair no Coruna de Pescador aqui de Campo Garande, né? "OBS: Apesar de tragicômica, a estória aqui narrada é verdadeira. Tanto é verdade que o amigo Fernando Monteiro até hoje comenta a vontade dos três companheiros, na época, de gratificar a quem soubesse do paradeiro da carreta, do motor, da traia e do japonês gozador, né?
Fernando Lucilha Jr.
-pescador e contador de estórias verdadeiras...