"O sertanejo é, antes de tudo, um forte." Há pouco mais de um século, Euclides da Cunha publicava sua obra intitulada "Os Sertões", e com ela deixava um legado profundo de como veríamos a partir daí o homem do sertão nordestino.
Assim, ao invés de somente descrever o conflito da Guerra da Canudos (1896-1897) como um correspondente do Jornal o Estado de São Paulo, Euclides acaba, por suas próprias palavras, denunciando um crime cometido contra a população pobre brasileira que, sem forças, é derrotada no dia 5 de outubro de 1897, restando apenas quatro de seus combatentes, um velho, dois adultos e uma criança.
Mas quando se pensa nos dias de hoje, qual a importância de se voltar a esta obra? Como homenageado da 17° Festa Literária de Paraty (Flip) em 2019, Euclides, através de seus escritos, retoma questionamentos e críticas quanto às narrativas oficiais presentes naquele período, e, para além disso, apresenta o modo com que a transição rápida de um governo monárquico para um republicano não havia informado e beneficiado de fato todas as regiões do país, deixando um ressentimento aqueles relegados pelas regiões Sul-Sudeste.
No entanto, há de se notar que esta desigualdade regional ainda persiste nos dias de hoje e não somente ela, mas a repressão do Estado para com aqueles que, por vezes, se veem assim como os habitantes de Canudos, excluídos do plano de desenvolvimento econômico e com problemas como a fome e a miséria ainda não resolvidos.
Sendo assim, a importância da releitura de "Os Sertões" não é apenas uma análise histórica de um período passado, mas um diagnóstico do que a população pobre brasileira ainda sofre, e por diversas vezes não é ouvida.
Resta o questionamento: de quantos indivíduos como Euclides é necessário para dar voz a ela?
E, por quanto tempo terá de ser ouvida somente pela voz do outro, e não por ela mesma?