Recentemente foi lançada uma biografia de Elke Maravilha, na forma de um audiolivro elaborado por Chico Felitti, na qual a imagem mítica da modelo e atriz é desconstruída. Ao mesmo tempo, Ruy Castro relembrou a biografia que escreveu sobre o jogador Garrincha ("Estrela solitária", Companhia das Letras, 1995), informando que ele era flamenguista, em ato de quase deslembrança de personagens e histórias. Tais exemplos mostram que faltam biografias de brasileiros. Mesmo as obras primas do citado Ruy Castro, pioneiras (de Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e sobre a Bossa Nova, como exemplos), não possuem um contraponto, como Lira Neto conseguiu fazer com Getúlio Vargas, biografado outras tantas vezes. Cometemos os mesmo erros históricos porque desconhecemos nossos personagens.
No entanto, Carlos Eduardo Berriel publicou um artigo no início de março, como mais um elogio ao livro "Metrópole à Beira-Mar - O Rio Moderno dos Anos 20" (Companhia das Letras), também de Ruy Castro, lançado no final de 2019, deixando-me curioso se tal repetição é devida a sua importância ou a venda abaixo do esperado. Além da descrição daquele local e período, há um embate sobre os meandros da Semana de Arte Moderna de 1922. Que não seja mais um alento à disputa Rio-São Paulo, como citado no artigo, mas, sim, a elucidação sobre aquele rico período pré-ditadura de Vargas, especialmente quanto aos textos publicados em jornais e revistas, pois há muito material anônimo ou sob pseudônimos não identificados. A Biblioteca Nacional possui esse acervo e o digitalizou com livre acesso. Ali se encontram pérolas e textos até então inéditos, mas em volume muito pequeno perto do que não possui ainda autor conhecido. Eis um trabalho de fôlego para os que no presente vivem intensamente aquele passado.
Por fim, Sérgio Rodrigues em sua coluna na Folha de S. Paulo discute de forma suave, clara e interessante a origem e o significado de palavras correntes, ou seja, sua etimologia. Recentemente discorreu sobre mais algumas questões que o imaginário popular e a submissão colonial alimentam quanto à origem de palavras, rotulada por ele de 'etimologia fake'. Lembro que 'mídia' é um palavra interessante nesse contexto, vinda do latim 'medium' e seu plural 'media', mas com a pronúncia do inglês. Meios de comunicação foram assim substituídos pela língua de Shakespeare, além do advento das fake news de um lado e dos ataques governamentais ao jornalismo e à cultura de outro.