Eles não tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever em outro momento da vida. Mas a idade, em muitos casos, já avançada, não os intimidou de tentar. Nas salas de aula, não encontram somente o bê-á-bá, mas atenção, afeto e amizade para driblar a solidão e buscar uma atividade prazerosa.
Essa é a realidade de pelo menos 130 alunos com mais de 60 anos de um total de 406 pessoas que estudam nas unidades do Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja), em Bauru. "Os alunos desta faixa etária têm uma maior dificuldade na aprendizagem, mas a vontade de aprender os motiva a estarem em busca de novos conhecimentos", afirma Andréa Cristina Soares Juarez, diretora de Divisão da Educação de Jovens e Adultos.
"Nas salas do Ceja, eles encontram um ambiente acolhedor e isso proporciona socialização e oportunidade para compartilharem seu dia a dia", completa.
Além do aprendizado escolar, o Ceja oferece passeios culturais ao Teatro Municipal, visita a exposições e universidades e aula passeio ao Zoológico.
"Além de enriquecer os conteúdos em sala de aula, contribui para o lazer, pois muitos desses alunos, infelizmente, não têm oportunidade para tais passeios e visitas", diz a diretora.
ATENÇÃO
No Polo Parque das Nações, cerca de 45 alunos estão distribuídos em três salas de aulas noturnas, onde os professores ensinam conteúdos do 1.º ao 5.º ano do Ensino Fundamental. A unidade tem Alexandre Freitas, Selma Galhardo e Maria Cristina de Andrade Silva como professores das turmas. "Eles já têm um histórico de exclusão escolar e, agora, estão se dando essa oportunidade. A gente sente que eles são carentes dessa atenção", afirma Alexandre.
E é isso que a dona Maria Captolina da Conceição Venâncio, de 73 anos, mais gosta no dia a dia das aulas. Ela, que estuda há três anos no Ceja próximo à sua casa, conta que já aprendeu a ler os letreiros do ônibus e que ainda quer tirar carta de motorista. "O professor é muito atencioso, eles todos são muito bons. Eu não sabia ler e escrever nada quando cheguei aqui. Agora, eu só tenho mais dificuldade em matemática. E também comecei a fazer corte e costura, depois que aprendi a ler", comenta. "Nos dias que venho para a escola, até durmo melhor à noite", completa.
AMIZADE
Quem também destaca os avanços durante os anos de estudo no Ceja é Maria de Lourdes da Silva, de 63 anos. Ela, que mora com o filho e o neto no Parque Viaduto, conta que sempre foi incentivada a estudar e que seu sonho é ler na igreja, na Paróquia em que frequenta as missas. "Eu venho de ônibus todos os dias e adoro as meninas. A gente conversa, faz amizade, isso a ajuda a gente não querer desistir. Eu sinto dificuldade ainda, mas quero continuar estudando. A professora é muito atenciosa com a gente para nos ajudar", afirma.
O recém-chegado Joaquim Ribeiro, de 73 anos, também concorda sobre o bom relacionamento com os outros alunos e os professores. "Estou estudando faz uns dias. Eu fiquei sabendo que aqui tinham aulas e vim tentar aprender alguma coisa. Estudei um ano só, não consegui terminar a escola. Agora, tenho ajuda dos professores e dos colegas", finaliza.