Depois de 6 meses matriculado na faculdade de jornalismo na Unesp em Bauru ganhei uma bolsa de estudos e fui morar no interior de Nova York. Um ano depois, de volta ao meu sertão, minha primeira aula foi Semiótica. Assunto: percepção. Docente: uma tão e única admirada - mas para mim desconhecida - Lúcia Helena Ferraz Santagostino. Na sala... eu não sabia onde estava. Mais estrangeiro do que quando morava na gringa. O assunto me era estrangeiro para além da minha presença nativa. Escutava um, ouvia outro, olhava um, envergava outro.
Fumávamos! Muito, encostados nas grandes janelas basculantes. Ela, a mestre, tinha a maestria de abrir o maço e inverter todo o conteúdo para dentro da carteira a fim de os dedos com giz jamais marcarem o filtro! [Talvez a primeira imagem que tenho dela encostando na mesa e começando a aula numa farta gargalhada].
Ao final da aula, a professora, me pergunta... ...e você? Não fala nada? ...Professora, estou sem percepção... e sem perspectiva. Não demorou para eu querer largar a faculdade. E fui lá conversar com ela sobre meus planos... Saí do papo com 3 livros sobre semiótica, percepção e memória. E nunca mais saí daquele câmpus e da vida dela. Minha grande mestra. Quando estou em sala de aula sou fortemente inspirado por sua atitude. Bem como outras poucas e únicas: Guacira e Ude... mestras que têm um único instrumento: a capacidade de narrar o conhecimento e te fazer embarcar numa viagem de descobrimento fascinante. Palavras. E às vezes, um giz!
Em nosso projeto de conclusão de curso, que se iniciou naquele meu segundo semestre após o intercâmbio, foi sob sua orientação. E compramos uma briga braba. Um projeto de comunicação em forma de espetáculo de multiartes. Mas se Lúcia sabia fazer bem uma coisa... era brigar! Estreamos LatinAlice e fizemos nossa história!
A luz de Lúcia me invadiu! Há pouco tempo ela me reconectou com seu filho do meio, Luba, produtor competente... me recomendou como uma possível solução para um desafio profissional. E daí, nasceu um documentário impecável para duas empresas de telecomunicações internacionais. Falamos bastante. Eu só agradecia - mais uma vez - ela fazer isso por mim. Por nós!
Minha adoração pelo espaço público foi forjado em suas teses e artigos. Sou um artista urbanista. Nasceu lá! Em 1991. Nas nossas infinitas segundas-feiras de estudo e cachaça em sua sala. Me lembro de uma tarde de aula ou orientação, fumando um cigarro no câmpus, na porta da sala de aula, observando os alunos que cortavam caminho pelo canteiro gramado formando uma trilha de terra... e eu comentei-divaguei ... por que a projeto não prevê o trajeto? ...O uso determina o espaço, Weber! Fala definitiva que reverbera em mim até hoje nos meus processos criativos! Taí, em tudo o que faço artisticamente a cidade e o flâneur... Lúcia. Tu já é Luz no nome. Helena, o amor que resplandece, brilhante. Que assim seja para sempre! Deixo aqui parte da minha memória (que tanto me ensinaste a entender) como homenagem.
Obrigado por cada segundo compartilhado! Foi um privilégio ser alimentado e orientado pela sua sabedoria!