Atitude

Quando fazer teste? Como cuidar de idosos? O que fazer com beijos? Médico explica

Cláudia Collucci
| Tempo de leitura: 5 min

O médico Esper Kallás, infectologista e professor da faculdade de medicina da USP, deu alguns conselhos a sua mãe, que tem 75 anos, para se proteger durante a pandemia do novo coronavírus - e eles servem para todos. Kallás é um dos principais especialistas em infecções virais do País. Ele tirou de forma didática as dúvidas mais comuns que se tem sobre o novo vírus, mesmo que em alguns casos, por enquanto, não se tenha respostas precisas. Grávidas são grupo de risco? Dá para beijar e abraçar amigos e parentes? Todo mundo que se sentir mal precisa ser testado? Veja respostas a essas e outras dúvidas na entrevista abaixo.

Diferença para outros vírus

Há uma quantidade grande de vírus por aí, e eles causam infecções todos os anos em praticamente todo mundo. O Sars-CoV-2 é mais um que vai fazer parte desse rol. Aos poucos, estamos entendendo qual a capacidade de ele de se multiplicar, causar doenças e quais são as características dessa doença que foi apelidada de Covid-19.

É mais perigoso?

Depende de como você faz a comparação. De forma geral, esse coronavírus é mais agressivo do que os vírus da gripe comum. Aparentemente, a porcentagem das pessoas que podem desenvolver doenças é maior. Está todo mundo se infectando muito rápido, mas não sabemos qual é o universo de pessoas infectadas.

Qual a hora de ir ao médico

A pessoa pode pegar e não ter sintoma nenhum. Há pessoas que têm um nariz entupido, depois escorrendo. E pessoas que têm uma doença mais agressiva, uma tosse mais exuberante, febre, dor no corpo, muito cansaço. E aí começam a aparecer outros sintomas. Uns têm mais dor de cabeça, a febre vem um pouco mais alta, a tosse é ainda mais intensa, 3% das pessoas podem ter diarreia, um pouco de mal-estar mais intenso, calafrios. Até aí não tem nada melhor a fazer do que repousar em casa e esperar os sintomas passarem. A maioria das pessoas, pelo menos 80%, vão ter desde sintomas brandos até esses mais exuberantes, mas que são totalmente possíveis de suportar em casa. É preciso procurar um hospital ou um médico quando você começar a ter sinais de falta de ar. Por exemplo, se você está sem febre naquele momento, vai andar um quarteirão e fica muito ofegante. Ou se está sentado vendo TV e está com dificuldade de pegar o ar. Ou começa a notar que as pontas dos dedos e os lábios ficam um pouco arroxeados quando você fica mais ofegante. E a frequência com a qual você tenta pegar o ar é maior do que você está habituado. Nesses casos, é bom que alguém dê uma olhada para ver se merece um cuidado especial.

Necessidade ou não de teste

O teste deve ser reservado, a partir deste momento em que estamos entrando, para situações especiais. Se é uma pessoa que tem vários problemas de saúde, uma idade avançada, está com sintoma e eles são um pouco mais exuberantes, vale a pena fazer. Pessoas de mais idade podem ter um quadro mais agressivo. Se tiver falta de ar, vá para o hospital.

Passeios com crianças

Neste momento, ainda estamos aprendendo e as recomendações mudam dinamicamente. Digamos que haja um grande aniversário com 300 pessoas, vovô, vovó, papai, mamãe, um monte de crianças da escolinha e gente que chegou de viagem. Talvez surja um ponto em que o vírus aproveite para se espalhar mais rápido. Especialmente entre pessoas que têm mais idade e outros problemas de saúde. O melhor é ficar em casa. É o que se recomenda.

Idosos e multidões

Pessoas de mais idade devem evitar aglomerações. Vou dizer o que disse para a minha mãe. Eu pedi para ela ficar mais em casa, evitar aglomerações. Por exemplo, ir à missa, a reuniões com amigas, cinemas com salas muito cheias, teatro. Minha mãe tem em torno de 75 anos, fuma, tem um pouco de enfisema no pulmão e preenche os critérios de alguém que pode desenvolver uma doença grave. Não que ela não possa receber alguns membros da família, encontrar pessoas que ela conheça. Mas sempre deve ter o cuidado de, ao encontrá-los, pedir para eles informarem se estão com algum sintoma de resfriado ou gripe. Caso isso aconteça, é melhor ir embora para diminuir as chances de pegar o vírus.

Grávidas

Não temos ainda ideia se grávidas podem ter problemas mais sérios se comparadas a mulheres não grávidas da mesma idade. Até agora, não chegou nenhuma informação - inclusive da China, Coreia do Sul ou Itália - de que elas sejam um grupo de maior risco. É uma boa notícia. Se não chegou essa informação até agora, caso haja algum efeito [em grávidas], não deve ser algo tão grande, porque senão nós saberíamos depois de mais de 150 mil terem pegado esse vírus em diferentes países.

Recém-nascidos

Recém-nascido aparentemente têm quase nenhum sintoma. Há alguns poucos, mas muito raros casos de crianças muito pequenas que ficaram doentes. De forma geral, raramente vemos uma criança doente, especialmente aquelas até os 10 anos. Esse número é muito pequeno entre adolescentes até 15 anos. Há poucos casos em pessoas com até 30 anos. A coisa começa a subir a medida em que entra na faixa dos 40 anos e vai escalonando aos 50, 60, 70 e, depois, 80, com mais chances de ter sintomas.

Beijinho, tchau tchau

É melhor evitar [beijos e abraços] qualquer tipo de contato com qualquer pessoa.

Fechar escolas ou não

Não adianta uma escola fechar, e a outra não. Não adianta termos uma cidade adotando uma política radical, e a outra não. Porque aí todo mundo faz ou deixa de fazer. Temos que tomar medidas mais coletivas para dar certo.

Ar-condicionado no trabalho

É melhor deixar as janelas abertas, porque a troca de ar é muito maior e mais rápida.

Lenço ou cotovelo para tossir

As duas opções têm suas vantagens e falhas. A tosse e o espirro são formas relativamente eficientes de espalhar o vírus. Quanto melhor a gente tapar [boca e nariz], melhor. Se você tiver um lenço de papel descartável, melhor. Mas, mais do que tudo isso, primeiro lave bem as mãos depois de tossir na mão ou no braço. As gotículas transmitem o vírus. Enquanto o braço de quem tossiu nele estiver úmido, o vírus pode estar presente. Se alguém vai, toca, depois coça o olho, coça o nariz, põe a mão na boca, acaba pegando.

Microondas no trabalho

Não tem problema compartilhar o microondas do trabalho. Agora, se vai se alimentar, lave bem as mãos antes, lave bem depois. Vai usar o talher? Lave antes, lave depois. É a melhor forma de se proteger. Não só de gripe, mas também de outras doenças.

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