A discussão já tem alguns dias. Parte dos empresários começou a questionar a necessidade de isolamento quase absoluto da população, por tempo prolongado como melhor estratégia das autoridades de saúde para enfrentar a pandemia do novo coronavírus no Brasil. As medidas de restrição ao trânsito de pessoas e funcionamento do comércio implementadas pelos Estados afetaram por tabela operações industriais e têm efeitos ainda imprevisíveis para o crescimento. Já há economistas projetando risco de o País voltar para a recessão.
Para uma parcela do empresariado, a política de proteção à saúde, se mal calibrada pelos governos brasileiros, pode deixar as pessoas no isolamento por mais tempo do que o necessário - e prejudicar de forma injustificável a economia. Nos últimos dois dias, essa discussão, que era de caráter econômico, ganhou contornos políticos, causando enorme desconforto entre empresários de diferentes setores.
Na noite de terça-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro defendeu em pronunciamento nacional a retomada das atividades e o isolamento apenas de grupos de risco, contrariando infectologistas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e governadores dos Estados.
Na tarde de quarta (25), foi a vez do presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Em resposta a Bolsonaro, Maia atribuiu a pressões do mercado financeiro os movimentos em defesa do fim de medidas menos rigorosas de enfrentamento à pandemia.
PAÍS DIVIDIDO
Entre os grandes empresários, a maioria do setor produtivo, essas trocas de farpas políticas estão atrapalhando, tando o combate a doença, quanto ações em favor da economia. Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Abiplast (associação da indústria do plástico), José Ricardo Roriz Coelho, "o momento atual exige convergência e união de forças para mitigar o problema humanitário do vírus".
O empresário se disse surpreso com a fala de Bolsonaro. Segundo ele, "deixa a população mais ansiosa e preocupada. De um lado, há empresários com os negócios parando e sem dinheiro para pagar contas. De outro, uma população que não quer correr riscos e tem recomendações para ficar em casa". "Seria bom que o Executivo se entendesse com o Congresso e com os governadores para ter uma posição única. Precisamos de um rumo".
O empresário Ricardo Lacerda, sócio-fundador do BR Partners Banco de Investimento, nem discute questões econômicas. Está no grupo que acredita ser melhor seguir a orientação da OMS. "Não é hora de inventar, é hora de proteger vidas. O resto trabalharemos para recuperar depois", afirma o banqueiro.
Alguns, porém, acham que o País precisa encontrar uma forma de atender ao mesmo tempo saúde e economia. Essa é a avaliação do empresário Rubens Menin, fundador da incorporadora MRV e sócio de negócios em vários segmentos, como o Banco Inter e o canal de televisão CNN Brasil. Menin diz ter duas preocupações: não deixar quebrar a rede de distribuição que leva insumos e produtos para manter o abastecimento, e preservar pequenas e médias empresas. Ele afirma, porém, que vai ser difícil fazer isso com a escalada de conflitos políticos. "A briga entre Poderes atrapalha os negócios, mas atrapalha ainda mais a população, que fica desnorteada", diz. "Precisamos unificar o discurso. O Brasil é o único país em que está acontecendo essa desunião. Isso é ruim. Todos os outros países tem discurso unificado."
Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan, considera pouco 15 dias de quarentena, embora diga entender as preocupações dos empresários. "De um lado, você não pode deixar a máquina econômica parar de girar porque senão vai ser muito ruim para todo mundo. E ao mesmo tempo, precisa dimensionar com correção quais são os efeitos reais desse vírus", diz.
Para Luiz Urquiza, diretor-executivo da rede de academias Bodytech, a prioridade deve ser seguir as recomendações da OMS, mas as autoridades devem ter um plano claro de saída da crise.