Washington - A corrida do governo americano para obter equipamentos médicos para o combate à pandemia do coronavírus colocou os EUA em rota de colisão com países aliados. Canadá e Alemanha reclamaram de ações dos norte-americanos para barrar a exportação de máscaras e tomar respiradores inicialmente solicitados por outros países.
A falta de máscaras e equipamentos de proteção tem sido um problema crítico em todos os países que se tornaram epicentro da pandemia, como é o caso dos EUA. Luvas e máscaras adequadas são usadas em larga escala, pois devem ser descartadas com frequência. Sem elas, os profissionais que trabalham na linha de frente do tratamento acabam contaminados. Já os respiradores são essenciais para pacientes graves.
Nesta sexta (3), Canadá e Alemanha se somaram a outros países que já vinham alertando para a política desesperada do governo de Donald Trump para suprir a demanda interna. O presidente invocou a Lei de Proteção de Defesa para fazer com que a 3M, uma das maiores fabricantes de máscaras do mundo, aumente a produção e suspenda as exportações.
Neste sábado (4), a própria companhia divulgou comunicado no qual alerta para as consequências. "Há significativas implicações humanitárias em cessar o fornecimento para profissionais de saúde do Canadá e da América Latina, onde somos um fornecedor crítico. Além disso, interromper a exportação, provavelmente, levaria outros países a retaliar", alertou a empresa.
O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, qualificou como um "erro" a decisão dos EUA de limitar as exportações de equipamentos médicos. "É um erro criar bloqueios ou reduzir a quantidade de comércio de bens e serviços essenciais, incluindo os médicos, de ambos os lados da nossa fronteira", disse Trudeau.
Ontem, autoridades alemãs acusaram os EUA de praticar "pirataria moderna" e adotar práticas do "Velho Oeste" depois que uma carga de máscaras N95 foi retida na Tailândia. A Alemanha afirma que 200 mil máscaras da 3M seriam destinadas a policiais do país.
Sem citar diretamente os EUA, o ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, também criticou a decisão americana de concentrar as compras de insumos emergenciais.
As reclamações ampliam a lista dos países insatisfeitos. A francesa Valérie Pécresse, presidente da região de Île-de-France, disse que máscaras que foram enviadas por empresas da China aos EUA tinham inicialmente sido vendidas à França. "Perdemos um pedido para os americanos, que nos superaram em uma remessa que tínhamos feito", disse Pécresse. "Eles ofereceram três vezes o preço e pagaram adiantado. Eu não consigo fazer isso."
Trump tem sido pressionado para socorrer Estados e municípios com respiradores e equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde, conforme o número de infectados cresce nos EUA. No dia 15, quando deve ocorrer o pico das internações hospitalares, segundo o modelo estatístico usado pela Casa Branca, os EUA devem precisar de 31,7 mil respiradores mecânicos. Atualmente, há apenas 12,7 mil no estoque de emergência do governo federal.