O presidente Jair Bolsonaro escolheu o seu ministério dentro do seu estreito espaço social: alguns partidos que o apoiaram, sem negociação, militares reformados e da ativa, evangélicos e um esquisito grupo ideológico. Apesar disso, conseguiu atrair um bom número de pessoas que estão à altura do cargo pela competência e merecimento de confiança. Entre elas o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, providencialmente escolhido para a gravíssima situação que não se esperava.
A literatura de liderança aborda casos de atritos entre superior e subordinado, quando o subordinado é mais bem preparado que o seu superior ou quando tenham visões diferentes para a tomada de determinadas decisões. No primeiro caso o superior tem inveja do subordinado e procura criar barreira com medo de ser suplantado. No segundo caso o subordinado, ciente de sua responsabilidade, procura, até onde pode, evitar que seja tomada uma decisão inconveniente ou desastrosa. É isso o que está acontecendo com o presidente e o ministro: o presidente ficou incomodado com a aprovação do ministro por 76% da população, contra os seus 33% e os panelaços.
Para encontrar uma saída honrosa quis impedir a quarentena e exigir a decretação de liberação do uso de cloroquina no tratamento dos infectados com covid-19, mas o ministro não cedeu, amparado pelas regras da Organização Mundial da Saúde e pelo que vem acontecendo em outros países. Contudo, o ministro não confrontou o presidente, apenas procurou esclarecer tudo o que estava fazendo e o risco de fazer o contrário, que pode ser catastrófico. Tanto assim que nas decisões e falas oficiais o presidente se pronunciou conforme as decisões do ministro, também seguidas pelos Estados.
Fora das decisões oficiais, o comportamento e falas do presidente pelo Twitter e nas ruas vêm procurando desmerecer o trabalho do ministro e dando mostras de desejar demiti-lo. A isso o ministro diz que pela sua responsabilidade com seu país, como médico e ministro, não pede demissão, repetindo a frase que ficará celebrizada na historia: "Médico não abandona paciente." Só sairá se for demitido, o que o presidente poderá fazê-lo quando quiser, porque o cargo é de livre provimento pelo presidente.
A atitude de Mandetta, de responsabilidade profissional e patriótica, tem sido alvo de má interpretação, principalmente pelos que querem ver o circo pegar fogo, entre eles o incendiário mor e contumaz candidato a presidente Ciro Gomes, que em entrevista ao UOL o chamou de "carrapato", grudado ao cargo, julgamento que não passa de uma rematada ideotice.
Situação semelhante à do nosso ministro acontece nos Estados Unidos com o médico Anthony Fauci, 'considerado o mais importante especialista em doenças infecciosas do país e um dos principais integrantes da força-tarefa criada pela Casa Branca para responder à pandemia, que costuma contradizer o presidente Donald Trump nessas e em outras questões ligadas ao novo coronavírus'.
E continua mantido e respeitado pelo presidente, conforme comentário da revista inglesa Economist, de 09/04/20. Esperamos que o presidente não cometa o desatino de satisfazer os incendiários de circo.