A comunidade médica teme que a demissão de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde leve a um afrouxamento das medidas de isolamento social. Consideradas cruciais para que o sistema de saúde não entre em colapso com a pandemia de coronavírus, essas ações eram defendidas por Mandetta, mas criticadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Para o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde, as decisões que serão tomadas a partir de agora vão definir a quantidade de mortos nas próximas semanas. Ele afirma que a esperança é de que o novo ministro da Saúde consiga manter uma equipe técnica robusta, reitere as medidas de isolamento social e consiga o mínimo de autonomia em relação ao presidente.
Assim como Temporão, o presidente do Conselho Nacional de Medicina, Mauro Ribeiro, elogiou o trabalho feito até agora pela pasta. Por outro lado, defendeu Bolsonaro. "Esse momento é muito difícil. Tem uma equipe que estava fazendo um bom trabalho, existe a maior ameaça da história da sociedade brasileira [o coronavírus]. Independente do ministro e dos secretários, o ideal seria a continuidade."
O coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, Sergio Cimermann, avalia que o oncologista Nelson Teich, que ocupará o cargo de Mandetta, pareceu ser uma pessoa bem informada e lhe chamou a atenção por sua visão econômica. Para ele, só será possível fazer análises com maior propriedade sobre o perfil do novo ministro a partir da semana que vem, quando Teich deve começar a atuar no cargo. Os efeitos de suas medidas deverão começar a aparecer daqui a 15 ou 20 dias.
A presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Suzana Lobo, defende as medidas de isolamento como as únicas comprovadamente eficazes para conter o coronavírus e teme pelos efeitos de uma mudança no rumo das políticas públicas.
Concorda Yussif Ali Mere, presidente da Fehoesp (federação dos hospitais, clínicas e laboratórios do estado de São Paulo), para quem a substituição era tudo o que o setor da saúde não precisava nesse momento. "Agora temos uma crise política em cima da pandemia".
O presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antônio Carlos Lopes, era crítico ao ex-ministro, que dizia ser alguém que falava bem, porém que tinha ambição política e pouco conhecimento técnico para ocupar o cargo. Ele defende que Teich foi a melhor escolha.