Em tempos de pandemia, muitas estatísticas são divulgadas. Tantos casos confirmados, outros muitos suspeitos, uma parcela de curados e, infelizmente, uma porcentagem daqueles que não resistem à doença. Entretanto, atrás da infinidade de números e curvas de evolução da doença, o que não se pode esquecer é que há vidas por trás dos dados. E uma delas é a de Paulo Scarcela, 75 anos, torcedor do Santos e amante da natureza, em especial de uma bela orquídea roxa, que, no dia da sua morte, abriu um único botão. Ele é a quinta vítima fatal confirmada da Covid-19 em Bauru.
A filha dele, Ana Carolina Scarcela, 31 anos, escreveu um texto emocionante nas redes sociais relatando todo o drama que a família enfrentou e a dor imensurável da perda. Confira:
“Perdi meu pai com 75 anos. Ele me ajudava com a minha mãe, que tem 70, e, há 7 anos, é doente, tem Alzheimer e Parkinson. Meu pai foi internado na madrugada do dia 29 pra 30 de março. Deixei ele no hospital, em isolamento, e nunca imaginava que ele iria morrer ali. Ele me deu tchau e eu falei que, assim que o médico liberasse visitas, eu voltaria (todos nós em casa tivemos coronavírus). E, ali, foi a última vez que vi aqueles olhos azuis. Meu pai foi internado na Ala Covid do hospital no domingo. Na quarta-feira (1/4), vi que tinha mudado o lugar da internação e ele tinha ido para UTI. Intubado, com sonda, coma induzido, mas eu estava firme e forte em oração. Um pequeno sinal de melhora era motivo da nossa alegria pra toda a família. No sábado passado (4/4), foi ajustada uma nova medicação pra que ele respondesse melhor e não precisasse de hemodiálise. No domingo (5/4), não teve febre. Que alegria!!! Segunda-feira, continuava grave, mas eles estavam cuidando com novas medicações. Na terça, dia 7/4, quando acordei, li que o boletim estava escrito risco grande de morte. Rins parados, pulmões que não reagiam à medicação e nem manobras das fisios... e, assim, às 8h da manhã, meu pai voltou, voltou para os braços do Senhor...
O dia mais triste da minha vida. Recebi uma ligação onde a moça dizia ser do hospital e sabia que não era a notícia que eu queria ouvir. Ela me disse que eu devia procurar uma funerária pra adiantar os trâmites. Aí eu em surto falei que queria ver ele. Eu já tinha tido a Covid. E poxa vida!!! Era meu pai.
Ela me disse: não! Ele sai daqui já no caixão! Direto pro cemitério. Ninguém vê!
E foi assim... enterrei meu pai no mesmo dia, às 15h30. Lá, estávamos eu, minha irmã, uma prima , minha mãe e meu noivo. Eu não pude escolher nem uma roupa pra ele. Porque, depois, soube que o corpo é preparado e ensacado. E, ali, vai tudo que ele usava. Os acessos , lençóis, panos. Depois, colocam no caixão e colam . E, ali, eu vi aquele caixão que eu não pude nem escolher, sem flores porque podem contaminar, sem os irmãos...
E, assim, com uma camiseta do Santos F.C. e algumas rosas da minha casa , enterrei meu pai... e dói, mas foi tanto que a gente nem imagina nunca como dói ate perder...
Ele amava essa orquídea da foto... e meu quintal é cheio de plantas... mas ele tinha um apreço maior por essa... no dia em que meu pai faleceu, quando cheguei, tinha aberto um único botão. Que segue sozinho e me dá a certeza, desde a hora que vi, que meu pai foi pro céu... nunca pensei em escrever nossa história aqui.
Hoje, vi alguns comentários que não acreditam nessa doença. Ela é ingrata, faz a gente perder a dignidade e me fez perder o amor da minha vida.”
Ana Carolina Scarcela, filha de Paulo Scarcela