Bruno Pasquarelli

A política internacional em tempos de Covid-19


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O mundo e as relações internacionais pós-Covid-19 definitivamente não serão os mesmos. Apesar da história da humanidade ser marcada por epidemias (em que alguns historiadores chegam a caracterizá-las como um terceiro exército em uma guerra), vivemos em um cenário inédito que poderá implicar em grandes mudanças para as relações entre os Estados, ou até mesmo acelerar eventuais transformações que já estavam em curso.

Porém, para pensarmos as relações entre os Estados nos mais diversos cenários, é necessário antes de tudo compreendermos o contexto atual, considerando as principais potências políticas e econômicas bem como os fatores que contribuíram, no campo da política e da sociedade internacional, para a disseminação do coronavírus.

Em primeiro lugar, precisamos compreender qual o ineditismo desse vírus, e porque ele se dissemina tanto. Para tanto, é vital entendermos que a Covid-19 é uma doença marcada pela globalização, na qual há a intensificação de fluxos, de bens e de pessoas. Em um mundo marcado pelo crescimento exponencial do transporte aéreo e pela facilidade de trânsito nos países, a propensão de que doenças se espalhem com mais rapidez é extremamente alta.

Em segundo lugar, ao mesmo tempo em que avança, a globalização vai criando mecanismos e instrumentos para que os Estados consigam lidar com seus próprios efeitos perversos, como as violações de direitos humanos, o terrorismo, as práticas ilícitas no comércio internacional e a disseminação de doenças ao redor do globo. Dessa maneira, organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização Mundial do Comércio (OMS) são importantes para prevenir crises políticas, econômicas e sanitárias, visto que objetivam promover a atuação coordenada entre os Estados-membros através da criação de instrumentos regulatórios que tentam impedir atitudes extremas e descoordenadas no plano internacional.

Contudo, desde a crise de 2008 temos visto diversas críticas a esse fenômeno. Enquanto umas destacam que o fenômeno da globalização concentra muita riqueza em poucos países, outras reiteram que há a intensificação de discursos nacionalistas tacanhos e de anti-movimentos migratórios. Ao mesmo tempo, embora não podemos continuar com a globalização desenfreada como vinha ocorrendo, não devemos abandonar a ideia de que o mundo é global. E, no plano prático, podemos notar que vem ocorrendo um movimento internacional de crítica ao multilateralismo – como no caso da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e da saída do Reino Unido da União Europeia. Tais movimentos políticos destacam, antes de tudo, que os Estados devem garantir suas soberanias internas frente ao âmbito multilateral, pois cada entidade nacional deve definir o que é o ideal para si, sem nenhum tipo de interferência ou ação coordenada no plano externo.

E entramos aqui no terceiro ponto da nossa abordagem. O enfraquecimento do multilateralismo vem despindo qualquer possibilidade de resposta coletiva frente às mais diversas crises – como é o caso da atual pandemia. Há dificuldade de coordenação de ações e pouca solução conjunta, sendo que cada país buscou uma alternativa diferente para se defender da disseminação do vírus.

Ressalta-se ainda que muitos representantes oficiais de diversos governos vêm acusando outros países pela disseminação do vírus no mundo, com aumento da desconfiança entre Estados. Enquanto alguns membros de governos países do Ocidente dizem, por meio de teorias conspiratórias, que a “culpa é toda da China”, que “a China inventou o vírus porque queria dominar o mundo”, ouve-se na China que “um soldado norte-americano teria entrado no país e disseminado o vírus”. Tais atitudes comprometem qualquer forma de diálogo diplomático e exacerbam uma onda de pânico e de disseminação de fake News que enfatizam estereótipos, desinformação e discriminação contra populações específicas. Porém, nessa guerra de narrativas, o jogo de culpa tem sido eficiente, para alguns governantes, para tentar varrer para “debaixo do tapete” as deficiências obvias que cada país tem enfrentado, como a diminuição histórica de investimentos na área da saúde em prol de um Estado mais enxuto e a ausência de ações coordenadas no plano externo.

Falar em “vírus chinês” é exacerbar, antes de tudo, um discurso discriminatório. Obviamente a China escondeu o vírus mais tempo do que deveria, reprimindo informações e até mesmo dificultando o trabalho de médicos e cientistas que tentavam avisar sobre a possibilidade de uma pandemia, além de fornecer poucas informações à OMS. Mas será que qualquer país teria atitudes semelhantes? Afinal, a China teve uma expectativa natural de conseguir abafar o caso domesticamente a partir da lógica da negação – exatamente o que muitos países fizeram nas semanas posteriores à quarentena da cidade de Wuhan. Contudo, a demora de algumas semanas cobrou um preço alto.

Por fim, o que podemos esperar do mundo após essa crise? Aparentemente, apesar dos graves erros iniciais, a China, que já detinha o posto de principal economia do mundo, tem lidado melhor com o problema no plano internacional, pois vem apostando na chamada “diplomacia da máscara”, visando reforçar a imagem de parceira global através da doação de equipamentos e cessão de médicos e cientistas a outros países afetados. Por sua vez, apesar dos Estados Unidos de Donald Trump não exercerem um papel de liderança e desvalorizarem cada vez mais a ordem multilateral, é vital que participem dos esforços de reconstrução do mundo pós-Covid – além de outras potências internacionais, como a própria União Europeia. A forma como ambos responderem a essa crise terá um impacto enorme na própria ascensão chinesa e no dinamismo da política internacional. Para além de soluções domésticas imediatas e a longo prazo (com fortalecimento do sistema público de saúde), é necessário garantir a efetividade de soluções globais, com revisão e fortalecimento de organismos internacionais.

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