Desde o dia 20 de março deste ano, os serviços não essenciais tiveram de restringir o atendimento ao público, como forma de conter o avanço do novo coronavírus. Embora os órgãos sanitários competentes considerem a medida eficaz, ela trouxe consequências catastróficas aos comerciantes e trabalhadores, afinal, muitos perderam o emprego e a renda. Diante disso, o Fundo Social de Solidariedade começou a desempenhar um papel quase tão protagonista quanto o da Secretaria de Saúde. "Com a pandemia, passamos a ajudar quem nunca precisou de assistência", informa a presidente do Fundo Social, a primeira-dama Lázara Gazzetta.
Para suprir tamanha demanda, o município desenvolveu um sistema, que ficará responsável pela logística da distribuição das cestas básicas às pessoas em situação de vulnerabilidade social. Ele será inaugurado nesta segunda-feira (27).
Até então, Lázara realiza, manualmente, a organização das ruas e dos bairros a receberem a visita dos voluntários. O programa deverá dar celeridade ao processo e fará com que o Fundo Social distribua até mil kits diários, caso haja voluntários para tanto. Atualmente, o órgão tem condições de ajudar 150 famílias por dia, o que é insuficiente.
Abaixo, a presidente detalha as providências e traz à tona outras questões. Confira alguns trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Antecessor do Gazzetta, Rodrigo Agostinho não era casado naquela época. Sabe quem tocava o Fundo Social de Solidariedade?
Lázara Gazzetta - Na verdade, as ações do órgão eram desenvolvidas pela própria Sebes. O Fundo Social de Solidariedade foi criado por uma lei de 1971, se não me engano. O texto deixa claro que a instituição deve ser presidida, voluntariamente, pela esposa do prefeito, se ele tiver uma. Assim que o meu marido assumiu, há três anos e quatro meses, eu me vi dentro de casa depois de trabalhar por 30 anos. Moralmente, não poderia exercer qualquer função dentro da prefeitura. Precisava fazer algo e encontrei o Fundo Social.
JC - O que mudou depois que você assumiu?
Lázara - Como bióloga, eu não conhecia o lado assistencial. Agora, posso dizer que a área é apaixonante. No início da minha atuação junto ao órgão, mandei uma carta à esposa do então governador Geraldo Alckmin, a Lu, mostrando a minha intenção de implantar três projetos: Escola da Moda, Escola da Beleza e Padaria Artesanal. Na época, Bauru não era contemplada por eles. Agora, também temos um conselho deliberativo, composto por 17 voluntários. Assumimos, ainda, as ações voltadas à geração de emprego e renda, bem como à arrecadação de alimentos. Paralelamente, dei continuidade às iniciativas de outrora: Jogos Regionais do Idoso, Miss e Mister Bauru, Casamento Comunitário, além da Campanha do Agasalho.
JC - A demanda aumentou desde o início da pandemia no Brasil?
Lázara - Sem dúvida. Eu jamais imaginei que viveria algo assim e fiquei assustada por dois motivos antagônicos. De um lado, pela fome. De outro, pela solidariedade dos bauruenses. Com a pandemia, nós também passamos a ajudar quem nunca precisou de assistência, como os profissionais autônomos. Como eles estão em casa, não têm como ganhar dinheiro nem para comprar comida.
JC - Por conta da quarentena imposta aos serviços considerados não essenciais, muita gente perdeu o emprego. Quantas pessoas vocês já ajudaram neste sentido?
Lázara - Atualmente, contamos com 50 voluntários. Até o momento, eles já entregaram, casa a casa, mais de 2 mil cestas básicas. Ainda assim, a demanda é grande. Por isso, passamos a trabalhar em conjunto com o CoronaVida, projeto social desenvolvido pelo Ministério Público. Tenho certeza de que, se não conseguirmos atender todo mundo, pelo menos, grande parte dos necessitados receberá a nossa atenção.
JC - Como as pessoas podem pedir ajuda?
Lázara - É fundamental que os interessados liguem para o Cras mais perto das suas residências e passem os dados necessários. Cada órgão monta uma tabela com a relação dos solicitantes. Eu junto tudo em um único arquivo e organizo, manualmente, a logística da distribuição. Já as doações que chegam à Sebes - o Fundo Social não possui sede física - são submetidas a uma triagem para verificar a data de validade.
JC - A prefeitura desenvolve um sistema que daria mais agilidade a todo processo. Quando ele começará a ser utilizado?
Lázara - Com o novo programa, elaborado pelo pessoal do TI, conseguiremos soltar até mil cestas básicas por dia. Hoje, temos condições de distribuir cerca de 150. Nós começaremos a utilizá-lo a partir de segunda-feira, dia 27. Antes da pandemia, os Cras não precisavam de grandes ferramentas neste sentido. No entanto, a demanda aumentou e, se continuarmos fazendo a logística da distribuição na unha, haverá atraso.
JC - Acredita que vivenciamos uma catástrofe?
Lázara - Nós vivemos uma guerra mesmo, porque atingiu proporções mundiais. E mais: lutamos contra um inimigo conhecido, porém, invisível.
JC - O pior ainda está por vir?
Lázara - Eu espero que não, mas me preocupo com o exemplo dos outros países. Tem lugar perdendo tudo o que conquistou, em termos de emprego, nos últimos dez anos.
JC - Então, quais são os planos futuros para o Fundo Social?
Lázara - Como nós não recebemos qualquer aporte financeiro e dependemos de doações, pretendemos continuar estimulando o lado solidário das pessoas, principalmente, através das campanhas junto à mídia.
JC - Qual é o caso mais dramático que marcou a sua trajetória à frente do Fundo Social?
Lázara - Há pessoas que não têm dinheiro sequer para morrer. Por isso, o Fundo Social de Solidariedade e a Sebes fazem o sepultamento de quem não consegue pagar pelo procedimento. Chegamos a buscar o corpo de um menino lá no Mato Grosso.
JC - O JC recebeu queixas de pessoas que pediram cestas há meses, mas elas ainda não chegaram. Qual é a dificuldade?
Lázara - Meses eu não acredito, mas pode ser que houve um atraso, sim. Tem muita gente pedindo e os voluntários não dão conta. As entregas são feitas casa a casa, justamente, para evitar aglomerações em volta dos Cras.
JC - Diante disso, vocês pensam em fazer alguma campanha para chamar mais voluntários?
Lázara - Pretendo me reunir com o promotor Enilson Komono, do CoronaVida, para abordar o assunto.
JC - Quais são as regiões mais vulneráveis de Bauru?
Lázara - Embora a gente atenda pessoas da cidade inteira, os bairros mais carentes são Parque das Nações, Jardim Europa, Ferradura Mirim e Fortunato Rocha Lima.
JC - Por fim, qual é o principal desafio para resgatar a dignidade humana?
Lázara - As relações pessoais. A era da tecnologia deixou as pessoas muito individualistas. Embora a solidariedade floresça em meio à pandemia, ainda existe muita gente que precisa refletir sobre as próprias ações. O vírus, inclusive, nos mostra que não podemos pensar só no nosso umbigo.