Com tantos abalos internos e externos nas últimas horas, o que poderia o mandatário da vez fazer para minimizar danos? Recolher as britadeiras talvez fosse uma maquete de recomeço. Ser mais presidente e menos Bolsonaro, também. Quem sabe, por uns tempos, deixar estacionado o Jair original de fábrica e investir num serviço de balanceamento de estadista? Ficaria, enfim, mais alinhado com as engrenagens do cargo.
E se as estruturas do imóvel-Planalto não estão lá muito firmes no momento para que insistir em som alto na sala e maretas nas paredes? Furadeiras nas portas, motores na garagem? Só fumaça. Será mesmo que os brasileiros-moradores, vizinhos nesse mesmo condomínio-país, querem pancadaria em plena pandemia? Esse povo, que somos todos, já não andou rachado demais nos últimos anos?
Nas fendas e vãos pode residir alguma solução. Se olhar por elas, talvez o próprio presidente identifique alguns aliados capazes de arquitetar alternativas. Nessa obra de reconstrução o importante é fugir do mico. O Brasil, até agora, foi aquele condomínio de um antigo humorístico: "Balança, Mas Não Cai". Mas perdeu a graça viver sob rachaduras. Pior ainda ter o poder bem embaixo delas. Arriscado demais em tempos de estremecimento.
Numa situação quase surreal, Lula (quem diria!) talvez tivesse um conselho a dar a Bolsonaro. Quando assumiu a sonhada presidência, amparado por acordos estranhos à sua imagem e semelhança (de fábrica), o petista deixou claro que o discurso de sindicalista não poderia ser o mesmo que ele, no alto cargo do Executivo, haveria de adotar dali em diante.
Bolsonaro teima em ser o candidato com mandato. Fica difícil e nada litúrgico. Ainda que acredite estar sendo autêntico, no fundo, só se torna menor - e menos maciço. Periga desmoronar. Quando, enfim, decidir resolver as rachaduras, com técnica e não truculência, talvez os estragos já sejam irreversíveis. E o palácio já tenha virado um quarto e sala muito pouco adequado para ser habitado por 4 anos inteiros.