Cito Raul Seixas, "O dia em que a terra parou". Música que hoje nos faz tanto sentido diante à situação atual, já que nos encontramos em meio a uma pandemia e, para muitos, a agonia não é sobre estar preso dentro de casa, mas estar preso dentro de si. Logo, é fácil notar que a Covid-19 é sobre adoecer o corpo e, para outros, a quarentena é responsável pelo adoecer da mente.
Estar vivendo a liquidez da sociedade que o pensador Bauman afirmou é resultado de toda crença direcionada ao material, mas, diante disso, percebemos que, no período da pandemia, o dólar alto e a queda da bolsa de valores não influenciam sobre aquele que adoece e não acalenta o luto da família que se desfez. Desse modo, percebemos a necessidade do homem sobre aquilo que é tangível, o que o faz esquecer os seus valores.
Em meio a tanto, o presidente da república vai contra as cautelas da quarentena, intitula-se atleta, foca-se à economia e exprime em uma coletiva os sentimentos ao ex -ministro da justiça que pediu demissão. Então, o Brasil vê, mas não repara, que além do caos vivido no cotidiano, o que adoece não é só aquele que possui o desprazer de possuir as doenças do século, mas o que adoece e padece é a sociedade que assiste do sofá de casa.
Enquanto uns sofrem e outros esperam, há aqueles que se confortam e possuem a convicção sobre a notícia que chega em sua rede social, já que há o conforto sobre o que não se questiona, porque não sabe questionar. O que citou Raul seixas sobre a terra parar nos faz refletir sobre atos que tivemos que renunciar e há aqueles que ainda insistem em questionar o governo anterior. Por fim, nos resta humanidade para olhar o próximo, aflorar empatia sobre a doença do outro, sobre a doença da alma, sobre a nossa própria doença.
Logo, nota-se que a quarentena, além de precaução da Covid-19, nos traz também a reflexão que um dia fez José Saramago. Trata-se de uma oportunidade que temos de prestar mais atenção, é o que afirma o escritor: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".