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A dimensão da crise política brasileira

Sérgio Mauro
| Tempo de leitura: 4 min

O quadro político atual brasileiro não difere muito do descrito por Machado de Assis no romance 'Esaú e Jacó', no início do século XX. O país se modernizou, mas manteve praticamente inalterados os próprios defeitos. Quais defeitos? Em todos os países há virtudes e defeitos, pois são próprios dos seres humanos que neles vivem. No caso brasileiro, sobretudo em virtude da atual crise provocada pela pandemia, a soma de irresponsabilidades e leviandades coletivas projeta-se assustadoramente sobre o atual governo e, sobretudo, sobre os atuais governantes.

Há sempre pelo menos duas possibilidades de lidar com os defeitos do país que se governa: 1) assumi-los e torná-los parte do governo e com eles impor-se demagogicamente sobre os governados; 2) tentar corrigi-los e propor formas de coerção e de orientação. O atual governo escolheu a alternativa 1, sem dúvida. Isto ficou patente no modo como começou a lidar com o coronavírus e nas ásperas polêmicas travadas com os outros poderes e com governadores e prefeitos. Não houve até agora, e pelo jeito não haverá, um diálogo construtivo e um canal de comunicação único, sem espaço para vacilações, no enfrentamento da pandemia.

Não cabe apenas às autoridades públicas decidir entre a quarentena e a livre circulação das pessoas nas cidades. Desde o início poderia ter sido criado com urgência um comitê de "sábios", formado por representantes dos vários setores da sociedade, de infectologistas a filósofos, para rapidamente tomar uma decisão baseada no bom senso e no respeito à vida. Governantes, mormente no nosso país, tomam decisões baseadas quase que exclusivamente sobre resultados de urnas, sobre futuras pretensões políticas e sobre índices econômicos que possam prejudicar tais pretensões, principalmente quando se trata dos altos escalões. Ao governante, no caso de uma emergência de saúde pública, caberia apenas tomar uma decisão burocrática que referendasse a decisão tomada pelo "comitê de sábios". No entanto, não só os "sábios" não foram consultados, como também a polarização que já existia antes se acirrou ainda mais com a polêmica sobre a adoção ou não de medidas para impedir a propagação do contágio.

Elevaram-se os tons e os saudosistas do regime militar dos anos 60 e 70 começaram a evocar a força bruta para impedir a resolução sensata de governadores e prefeitos que querem minimizar os efeitos perversos da pandemia. Embora os líderes militares tenham demonstrado, pelo menos até o momento, que não pretendem embarcar em novas aventuras golpistas, é preocupante a agitação de grupos que apelam para a volta do AI-5 e revelam planos previamente traçados antes mesmo da candidatura de Bolsonaro à presidência.

De resto, quase todas as vezes que as crises econômicas internacionais alcançam o Brasil, expondo as profundas desigualdades sociais, ou nas ocasiões em que a mídia faz dos escândalos de corrupção um meio para auferir lucros expressivos, escutam-se vozes que recordam a aparente "ordem" reinante durante os vários governos ditatoriais da nossa história. A tendência dessas vozes é a de esquecer ou minimizar tanto a enorme pobreza e a corrupção do período ditatorial como o uso da força bruta para esmagar os opositores. Tais vozes ressaltam ainda as fragilidades da democracia e, apenas quando lhes convém, a falta de consciência política do povo brasileiro que "não sabe votar". Mas quando o governante escolhido pelo povo vai ao encontro do que consideram o restabelecimento da ordem e a reorganização da economia, afirmam que o problema está no Legislativo e no Judiciário que impedem o caudilho de tomar as medidas necessárias para "por fim à bagunça".

Que ninguém se iluda, todavia, com os bons propósitos do governador de São Paulo, principal adversário de Bolsonaro no embate ligado à quarentena. Evidentemente, ele está antes preocupado com as próximas eleições para presidente que com a saúde dos nossos velhinhos e crianças. No entanto, pelo menos por ora, a população mais frágil e mais sujeita à pandemia pode "aplaudir" as pretensões eleitoreiras de Dória. A adoção da quarentena, embora drástica e até trágica, revela-se a única possibilidade de, pelo menos, fazer menos vítimas e conter a propagação do vírus.

As crises têm geralmente a virtude de levar os humanos a repensar as próprias inabaláveis crenças. A normalidade, posta em cheque, mostra-se instável e relativa, quando somos submetidos a qualquer tipo de crise. No caso do atual quadro político brasileiro, porém, constata-se tristemente que o momento crítico está servindo principalmente para fazer vir à tona os aspectos mais conservadores e provincianos de determinados grupos sociais. Além disso, deixa patente o despreparo e o egoísmo de boa parte dos nossos governantes, mais preocupados com índices econômicos que façam despencar a própria popularidade ou que possam dar ao seu fiel eleitorado a sensação de não ter cumprido as promessas feitas nas campanhas eleitorais.

Enfim, na delicada situação em que se encontra o país, sobretudo depois da recente demissão do ministro Sérgio Moro, o bom senso e a lucidez deveriam prevalecer entre os nossos líderes, mas para eles o possível desempenho ruim da economia e os futuros resultados nas urnas contam mais do que a saúde da população.

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