Serviço, ocupação, emprego, vaga, atividade. Trabalho que dá! Todo dia envelhecemos os nossos sonhos comendo o pão da mesma padaria, bebendo o mesmo café da xícara. Todo dia nos arrumamos no corpo cansado ouvindo velhas novidades. Todo dia a reza, a moral impoluta. Todo dia relógio ponto, sirene.
Nessa morte lenta e silenciosa há quem, classificado a novas propostas, busque novos classificados para o dia do trabalhador.
Moça poliglota, embotada de cansaços, busca tradutor para intermediar seus monólogos. Pedreiro, com larga experiência em Chico Buarque, procura vaga em construção. Fazendeiro, colecionador de cálices, procura veterinário. Suas porcas, de muito gordas, já não andam.
Corretor, leitor de Carolina de Jesus, vende apartamento com quarto de despejo. Coach do Amor, entendido em Dias Gomes, orienta na busca do bem-amado. Babá, carregada de provérbios, recepciona choro de leites derramados. Florista, aficionado por Zé Ramalho, cuida sem maiores pretensões de violetas velhas sem colibris. Professor de História, seguidor de Engenheiros do Hawaii, ministra aulas particulares a alunos que com a cara limpa e a roupa suja, permanecem à espera que o tempo mude. Universitário do curso de Física - alguém dessa legião urbana - busca emprego de plantonista na intenção de explicar para os alunos que, movidos pela massa e energia, temos nosso próprio tempo.
E pra não dizer que não falei das flores, auxiliar de jardinagem, admirador de Cartola, procura vaga em jardim com rosas que exalam o perfume roubado de apaixonados. Hospital contrata otorrinolaringologista de conhecimento tônico para ouvidos hiatos. Psiquiatra, fã de Milton Nascimento, na travessia das consultas, disponibiliza tratamentos para caminhos feitos de pedra em sonhos feitos de brisa.
Sociólogo colecionador de ideologias, simpatizante de Cazuza, reinaugura movimentos de rotação, cansado de ver o futuro repetir o passado. Operador de trânsito, especialista em Elis Regina, busca função em vias cujos sinais permanecem fechados pra muitos de nós, jovens.
Família busca psicólogo conhecedor da música Eduardo e Mônica para filha que, com a boca de chiclete menta, masca incertezas, por desconhecer se existem razões nas coisas feitas pelo coração. Eu, admirador de Drummond, ainda busco no Criador o porquê de a vida ser um claro enigma.