Cultura

'Nossas histórias terão significância?'

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Eles já são familiarizados com o isolamento. Isso ocorre mais notadamente nos decisivos períodos em que precisam de máxima concentração para tirar histórias e personagens da cabeça e passar tudo para o computador. Em tese, os escritores deveriam se sentir menos afetados com fases de confinamento. Não contavam, contudo, com novos dilemas gerados pela constatação de que toda uma sociedade está impactada, acuada e indecisa.

"Será que nossas histórias terão significância diante do que está acontecendo, será que nossas reflexões continuarão a ser pertinentes?", questiona Rafael Gallo - vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Sesc e indicado ao Jabuti.

Ele mesmo busca respostas: "Talvez o mundo mude tanto, que nossas histórias percam ressonância. Ou pior: talvez o mundo não mude nada, o que será outra falência da humanidade. É difícil escrever quando aquilo do que a literatura é feita - o humano e a linguagem - parecem sob o fio de tamanha ameaça".

"Talvez a única vantagem que escritores tenham, nesse momento de quarentena, é o fato de já estarem um pouco mais habituados a ficarem em casa, a se contentarem com um espaço físico restrito, onde a imaginação é que se expande, com liberdade", avalia.

"O problema, me parece, é que esse âmbito imaginário também está sob quarentena. São outras as formas de se restringir as movimentações do pensamento, claro, mas elas podem ser tão cerceadoras quanto as físicas, ou mais. Não há máscara ou álcool gel que permita à criatividade ir aonde precisa, se ela não tem potência para sair do lugar", prossegue.

Autor de romances e contos, Rafael - que mora em São Paulo, mas passou infância e adolescência em Bauru -, compartilha: "Tenho conversado com colegas e alunos escritores, a maioria tem me revelado os mesmos problemas: dificuldade de concentração para ler ou escrever, quebra de propósito na relação com ficções, dispersão em meio a tanto ruído de notícias e preocupações cotidianas, ansiedades demasiadas, inadaptação ao desmonte da rotina e - pior do que tudo - um senso de esvaziamento do mundo tal qual o conhecíamos".

'Amarrado'

Autor de 12 livros com temática espírita pela Editora Ceac, de Bauru, Sidney Fernandes também tenta assimilar essa época de novo coronavírus e distanciamento. "Não gosto da expressão 'matar o tempo', pois fico procurando, às vezes na madrugada, tempo para escrever, gravar vídeos, colocar a correspondência em dia e fazer palestras virtuais. O tempo é algo precioso", pontua.

Ele reconhece que "o isolamento é realmente o sonho de todo escritor, para que sua criatividade possa se manifestar livremente", mas também faz ressalvas: "Confesso, no entanto que, mesmo 'amarrado' ao computador, em 'cárcere privado', ainda não consegui tomar as providências finais de meu próximo livro e não dei andamento a dois outros, em fase de construção".

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