A crise política e os reflexos da pandemia que preocupam o mundo permeiam a arquitetura branca e moderna concebida por Oscar Niemeyer, dando a Brasília (DF) o clima de tensão característico do momento que o mundo atravessa. Milhas distante do contexto conturbado da capital nacional, uma Brasília aqui perto vivencia realidade oposta. Misturado ao aroma de eucalipto, o ar por lá é de tranquilidade, onde os moradores, ainda que conscientes sobre a Covid-19, não compartilham tanta aflição.
Com "jeitão" de mamona, planta comum também no cerrado brasileiro, o vilão da pandemia ainda não venceu os pouco mais de 30 quilômetros que separam Bauru dos 500 moradores do bairro rural Brasília Paulista, que pertence ao município de Piratininga. Apesar de a cidade ter confirmado três casos da doença, nenhum é morador de Brasília.
A aprazibilidade do local dá as boas-vindas logo ao entrarmos pelo caminho de terra cercado por árvores que leva ao vilarejo. Ao fundo de uma das poucas ruas, Aparecida Lemes, 76 anos, e Roseli Siqueira, 60, caminhavam lentamente à procura de uma vizinha que pudesse ajudá-las com um corte de cabelo. O passeio, segundo a dupla, não é prática frequente, mesmo quando o momento era mais favorável. "Se me perguntarem da quarentena, respondo que estou vivendo ela há 10 anos", responde, aos risos, Aparecida.
Na percepção das amigas, poucos hábitos mudaram na rotina de Brasília Paulista desde que a ameaça do vírus se espalhou. "Nós sabemos dos cuidados que temos de tomar, mas já não saíamos de casa antes. Temos dois mercadinhos e uma "vendinha", comenta Roseli. As vizinhas de bairro destacam que a tensão causada pelo medo da doença não abalou o sossego do local, o que é bem fácil de perceber.
Apesar de conhecerem o lugar há quase 10 anos, ambas ressaltaram que a melhor pessoa para falar sobre Brasília Paulista seria o seo Antônio, dono da "vendinha", na rua de baixo. E foi ele mesmo quem comentou sobre os novos dias do bairro, onde nasceu e voltou a morar há 30 anos. "Esse é meu lugar. Essa paz a gente tem é só aqui mesmo", salienta Antônio Herrera, 84 anos. "Só vi diferença no movimento da venda (que caiu) e algumas pessoas que passam de carro com máscara", diz.
SEM MEDO
Sentado debaixo de uma sombra, ele admirava o final da tarde no silêncio, olhando para o descampado verde do outro lado da "calçada", em frente ao seu comércio. "Eu desliguei a televisão para não ouvir mais sobre as mortes. Quando eu sento aqui, eu me desligo. Às vezes, dou umas voltas a cavalo ou saio caminhar", diz. "Não tenho medo da doença. A gente só pensa nisso quando vem alguém de fora, mas rezo a Deus que não chegue aqui", completa.
Outro que vive por lá é seo Geraldo Silvério, que subia com sua enxada nos ombros retornando para casa, após mais um dia de trabalho. Em sua simplicidade e simpatia, tentou até cumprimentar a reportagem com um aperto de mão. Ficamos apenas com o sorriso e, logo, ele se lembrou das novas regras de convivência. Acontece que, por ali, tudo isso ainda parece estranho. "A gente não vê as pessoas do bairro de máscara. Para mim, está tudo como era antes, mas a gente sabe que tem que tomar cuidado", afirma o idoso que não recorda sua idade, por não ser alfabetizado.
BRINCADEIRA
Não muito longe dali, uma pequena aglomeração e risos de crianças chamavam a atenção por interromper o constante canto dos pássaros. Eram seis garotinhas que pulavam corda ao lado do campo de futebol, onde não há jogos desde o início da quarentena.
Na falta da conexão à Internet - tão presente nos lares atuais -, o grupo de meninas com idade entre 1 a 16 anos encontra, no bairro, a oportunidade de viver como as crianças de épocas passadas. "Agora a gente tem mais tempo para brincar juntas. Isso tem sido bom e diferente para gente", afirma a jovem Yasmin Alves Custódio, de 16 anos.
Ainda que não entendam o cenário político em que "a Brasília lá de longe" está e sobre o vírus que as afastou das colegas de escola, o cenário protagonizado pelas meninas que pulavam corda, em um final de tarde na Brasília daqui, chega como que ar puro. Um respiro cheio de esperança de que os dias possam ficar melhores, como elas acreditam que serão.