Gastronomia

Doce cítrico

Juliana Ventura
| Tempo de leitura: 2 min

Este não é um texto sobre doce com furinhos ou sem furinhos -até mesmo porque pudim bom é aquele de que nós gostamos. Este é um texto sobre a mistura de ingredientes perfeita, com doçura e ácido; é sobre o pudim de laranjas, quitute feito com maestria por minha bisavó. É sobre a receita que, segundo meu pai, chega quase lá.

Não consegui chegar à perfeição familiar, mas não me abalo. Subjetivamente, memórias afetivas podem pregar peças. E, objetivamente, receitas antigas são complicadas de reproduzir. Às vezes, por falta de medidas precisas, outras por ingredientes que não existem mais e também porque provavelmente o forno da minha bisavó funcionava à sua própria maneira.

Dona Lucília já usava leite condensado, invenção do século 19 (ainda que adição de açúcar tenha vindo depois), em sua receita. Mas um de pudim de laranjas dessa época, segundo o "Dicionário do Doceiro Brasileiro" (editora Senac São Paulo), podia levar apenas ovos, açúcar e laranjas e era cozido em folha, "dentro de um tacho com água fria, devendo, porém, ter-se o cuidado de não deixar a água entrar na folha quando começar a ferver". Um banho-maria que parece um bicho de sete cabeças.

Nada disso. A receita aqui é simples. Usa o leite condensado à favor da confeitaria brasileira e o liquidificador como peça-chave. O creme à base de ovos e leite ganha a companhia do suco de três laranjas (além das raspas) para uma iguaria daquelas bem doce, como o nosso povo gosta, mas com um toque cítrico que a faz ganhar algo de festivo, sofisticado e diferente.

Indico o uso da aromática laranja-bahia, saborosa e com casca cheirosíssima, que deixa a casa perfumada. Outras variedades também podem funcionar, mas essa fica perfeita. Outra dica: a calda demora mesmo para caramelizar, não se estresse, mantenha o fogo baixo e vá virando a forma.

Esta receita é uma ótima terapia para passar o tempo durante o distanciamento social.

Vamos para a cozinha? Até a próxima!

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