Há exatos 75 anos, o grito de liberdade ecoava na Itália. 8 de maio de 1945 foi o Dia da Vitória na Europa, marcando o encerramento oficial da Segunda Guerra Mundial no continente. O Brasil foi representado nas trincheiras por mais de 25 mil homens, incluindo 39 combatentes bauruenses, conforme conta o jornalista e memorialista Luciano Dias Pires. A data de hoje relembra o fim de seis anos (1939-1945) de sofrimento e resistência - com impactos econômicos e sociais também em Bauru - e é usada por Luciano para traçar um paralelo com a "guerra" que travamos atualmente, esta contra um inimigo invisível.
"Recordo a fase vivida durante a o transcorrer da Segunda Grande Guerra, quando, mesmo fora de uma participação direta naquele movimento bélico, os brasileiros sofreram, e muito, com o racionamento dos gêneros alimentícios, cortes de energia e falta de gasolina, substituída pelo gasogênio", comenta o memorialista.
Ainda que sejam dois momentos bastante diversos em relação aos recursos em todo o mundo, o período de pandemia - que já causa escassez em locais de maior vulnerabilidade - faz lembrar algumas das dificuldades sentidas pelos bauruenses em período bélico. "Na época, surgiu o 'pão da guerra', no qual era aplicada a farinha de trigo e, na falta desta, em virtude do seu racionamento, passou a contar com o fubá. Mesmo assim, surgiam filas intermináveis nas padarias para se conseguir apenas um quilo por família", relembra.
Luciano Dias Pires conta que, por conta dos blecautes causados pelos cortes de energia elétrica, os estabelecimentos também evitavam a movimentação e a aglomeração das pessoas. "Os bauruenses aprenderam a se organizar em filas quando necessitavam adquirir diferentes produtos no comércio, ir ao cinema ou fazer uso da circular", afirma.
PARTICIPAÇÃO
Não há como falar do período sem mencionar o trabalho incansável prestado e o grande número de vidas perdidas. Estima-se um total de 80 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial. Assim, Luciano relembra os muitos jovens brasileiros que não retornaram para suas famílias, inclusive, o bauruense Rodrigo Leme da Silva. "Em sua homenagem, uma praça foi batizada com seu nome", afirma. "O primeiro tenente Arnaldo Vissoto, formado em nosso Aeroclube, igualmente, participou da guerra e foi condecorado pelo comando do 5.º Exército Norte Americano em Alexandria, na Itália, em 1945. Ele e o sargento Jack Pires foram amigos de infância e combateram juntos", destaca.
Vivendo em tempos de pandemia, ainda que com diversas perdas para a Covid-19, o memorialista, que completará 93 anos nos próximos dias, avalia que o período de guerra foi uma crise ainda maior para o mundo. "Sem dúvida nenhuma, um trágico acontecimento, pior mesmo que qualquer doença, como a atual, visto as milhões de mortes provocados pela ação do homem", avalia Luciano.
VITÓRIA
O final da guerra, em Bauru, foi marcado por alegria contagiante, sirenes ligadas pela cidade e sinos das igrejas badalando por diversas horas. "38 soldados bauruenses retornaram da Itália somente em 7 de setembro de 1945. Houve desfile e o povo, entre palmas e vivas, atirava flores, confetes e serpentinas aos carros", conta.
Também os aviões do Aeroclube, por sua vez, realizaram voos rasantes, enquanto ouvia-se o replicar dos sinos das igrejas e apitos das locomotivas Noroeste, Paulista e Sorocabana. "Um espetáculo indescritível", conclui Luciano Dias Pires.