Sob nossos braços, o manual de etiquetas. Todas cuidadosamente asseadas para que aprendamos agradar o outro. Polido e civilizado precisamos ser. Ajoelhados, seguimos os mandamentos religiosos, pois da espiritualidade precisamos cuidar. Obedecemos às regras regulamentos e leis. Aprendemos a afivelar no rosto o melhor sorriso, quando conosco alguém vier falar. O melhor é falar menos e ouvir mais. O bom-tom nos ensina que devemos acenar com a cabeça e assim aprovar o que nos é dito. Assim agindo, evitamos turvar a água da amizade. Esforcemo-nos neste difícil aprendizado, pois só assim faremos parte desse seletivo grupo de pessoas admiráveis. Tudo fazem exemplarmente. Falam pausadamente, medem o que dizem, sorriem com ternura e, à mesa, manuseiam com requinte talheres e taças. Vestem-se com discreta elegância e oferecem ao interlocutor o protagonismo da cena. Benditas etiquetas que nos salvam da rudeza dos costumes.
Quando menos se espera, a pedra do caminho. Em leitura fluvial eu estava, mas uma frase de Kant me intrigou: "Quanto mais civilizados se tornam os homens, mais eles se tornam atores". Agulhado pela provocação, comecei a pensar. Não estaríamos decorando "scripts" demais? Exagerando o número de papéis a representar? Com tantas falas marcadas, tantos gestos ensaiados, em que gaveta estamos trancando os nossos interditados desejos e a nossa singular verdade? Além da sala decorada, o que fazer com o porão? Como diferenciar, neste teatro, quem realmente está sentindo de quem está apenas falando? Acabamos criando duas vidas, paralelas: uma correndo por cima; a outra, por baixo do pano. Quanto de verdadeiro há na gentileza que nos acaricia? E quanto dela é apenas verniz? Sempre soubemos que era preciso domesticar o bicho, a fera que existe em nós. Por isso, criamos tantas placas de contramão. Sempre soubemos que só o processo civilizatório poderia conter a fera humana. Mas apesar de todos os esforços, o bicho não está seguramente enjaulado. A fina casca pode, a qualquer momento, romper-se. Melhor sair de perto.
Depois outra frase, igualmente incômoda, agora de Goethe: "Todos são polidos e corteses, mas ninguém tem coragem de ser caloroso e verdadeiro, de modo que um homem honesto, com sentimentos e opiniões naturais, fica em situação muito ruim." Bem isso. Temos amaciado com algodão o que falamos. Talvez por isso admiremos tanto a boca corajosa que diz na lata o que é preciso dizer. E igualmente vibremos quando, rompida a casca da hipocrisia, a verdade se escancara.
Mas e o bicho? Como civilizá-lo? Para domesticá-lo foi preciso que colocássemos para morar com ele um inquilino professor, policial e juiz. Então, passaram a conviver os dois, o selvagem e o civilizado. Deu resultado? Essa narrativa ilustra o pensamento de Diderot, que assim concluiu: "As rusgas foram crescendo, o conflito escalou, mas nenhum dos dois foi forte o bastante para aniquilar o outro. E assim brotou no interior da caverna uma guerra civil que se prolonga por toda a vida." E por séculos se prolongará. É só levantar a ponta do tapete.