Em meio à pandemia é natural que em algum momento a pergunta "até quando vamos viver esta realidade?" venha nos atormentar e, pela falta de resposta, ela volta a permear nossos pensamentos. Estamos em casa, e a partir desta realidade trouxemos conosco nosso trabalho, a escola de nossos filhos, a faculdade, a aula de música, o grupo de amigos, os parentes, enfim, tudo mudou tão de repente que não tivemos tempo de nos preparar, e muitos estão tendo dificuldade de se acostumar com esta nova realidade.
Neste cenário, ficamos sem saber como organizar nossas tarefas sem nos atropelarmos pela correria e pela divisão dos espaços, que muitas vezes ocorrem no mesmo lugar. A realidade é nova para todo nós: para os pais, para os filhos, para os professores, para os chefes, e diante deste cenário, temos que pensar no coletivo, praticar a paciência.
Temos referências anteriores, mas neste momento devemos determinar regras possíveis, para que tudo não fique tão confuso dentro de nós. No momento, devemos exigir de nós aquilo que podemos dar, e não o que gostaríamos de dar. A dinâmica da vida mudou, e não sabemos como será daqui para frente e nem até quando, mas sabemos quem somos e quem gostávamos de ser antes desta pandemia, e essas referências é que devem nortear nossa rotina no momento. Estar em casa deve ser preconizado pela vida real e atual, e é neste cenário, que vamos nos organizar.
Exigir demais num momento de incertezas pode nos colocar diante de sentimentos sem nome e sem endereço, o que certamente provocará em nós sentimentos de angústia, medo, raiva etc. Por isto, depois de organizarmos nossa rotina, devemos deixar rolar cada dia, pensando que estar em casa, almoçar em família, falar com parentes e amigos, assistir peças de teatro, filmes, óperas, concertos, visitar museus on-line, passam a ser também adereços para desfrutarmos de momentos adoráveis com quem gostamos, além de vivenciarmos momentos culturais e de conhecimento, que nos transportam ao mundo lá fora, mas também ao mundo dentro de nós. Estamos preservando a vida quando ficamos em casa, a vida de quem amamos, mas também a vida de quem nem conhecemos, a nossa vida, e neste cenário as possibilidades se tornam infinitas, o convite é para nos amarmos, nos respeitarmos, sermos solidários com os outros, mas conosco também. O convite é para vivermos a coletividade. O momento pede solidariedade, vivência genuína do presente. O tempo é hoje, e hoje é o que temos e sabemos. Assim devemos viver este momento, mesmo com os medos desconhecidos, aqueles que nem ainda tem nome. As crises pessoais exigem tratamentos psicoterápicos para serem elaborados, e o inconsciente não tem existência concreta que produza efeitos concretos, mas uma mente que pensa e que se olha, produz efeitos inimagináveis sobre a vida concreta.
Freud, ao assegurar que somos regidos por impulsos inconscientes e não somente por princípios racionais, sinalizou que somos neuróticos inconformados com nossas limitações e, principalmente, com a finitude de qualquer espécie e tempo. É muito fácil nos reconhecermos nesta condição, basta olharmos para os nossos medos, desamparos, angústias, basta refletirmos sobre o momento atual, que entenderemos do que se tratam estas limitações. O susto frente ao desconhecido nos amedronta e o modelo de agora está sendo construído diariamente, cheio de incertezas e de perguntas sem respostas, mas ainda assim temos a nós mesmos. Pensar dá trabalho, mas vale muito a pena!