No meu octogésimo aniversário ganhei de um querido amigo e irmão de Piratininga o livro "O Discurso Rei", dos autores Mark Logue e Peter Conrad, que discorrem sobre o trabalho desenvolvido durante muitos anos por um terapeuta da fala junto ao Rei George VI da Inglaterra, que tinha dificuldades em se expressar, por ser portador de gagueira. Todos os discursos do rei eram revistos e acompanhados por Logue (pai) antes de irem ao ar pela rádio BBC de Londres, ouvida além da comunidade britânica, em todo o mundo. Assisti ao filme, muito bonito, mas o livro é completo, melhor. Esta leitura ocorreu, incrivelmente, oito anos após ter sido presenteado pois redescobri-o na estante do meu escritório, relendo a belíssima dedicatória e procedi a sua leitura por completo.
Naturalmente cumprindo a quarentena, recolhido em minha casa como todos, com a finalidade de nos defendermos do coronavírus. Após sua leitura final, voltei às páginas que tratam sobre os horrores vivenciados pelos londrinos diuturnamente durante os seis anos da segunda guerra mundial, de 1939 a 1945. E, obviamente, fazendo comparações, análise e reflexão com o período que estamos atravessando, obrigados a permanecermos em nossa casa como grupo de risco, uso de máscara, enfim, tomando os cuidados necessários como autodefesa. As citações são impactantes quando se referem às providências e determinações estabelecidas rigorosamente pelo governo da capital londrina como a imposição a todos que moravam em casas ou prédios que tivessem jardim, em abrir um fosso com a profundidade mínima de 1m para abrigo da família durante os ataques aéreos quando troavam as sirenes. Ao mesmo tempo, a defesa improvisava e edificava abrigos públicos que abrigavam centenas de pessoas. Foi citado o blecaute para desnortear os pilotos alemães que bombardeavam despejando toneladas de bombas; os "supervisores de ataques aéreos" para policiarem as casas que não cobriam as janelas com papel opaco, isto quando ainda havia luz. Os autores tratam ainda sobre a distribuição pelo governo de 38 milhões de máscaras de borracha para as pessoas se protegerem sobre possíveis ataques com gases venenosos por parte dos alemães. Durante o dia soltavam milhares de balões coloridos a fim de dificultarem os voos e bombardeios dos aviões. E, ainda mais, além dos bombardeios que destruíam e causavam centenas de mortes em cada ataque, nos últimos tempos da guerra apareceram as terríveis bombas voadoras V1 e V2. Muito triste quando se referem à terrível fome reinante, aos filhos e maridos que, convocados, alistados e embarcados para a defesa da pátria, não mais voltaram. Chega de citar tragédias e tristezas.
Não quero ser como a nossa televisão que neste momento, com o intuito de informar sobre a Covid-19, provoca pânico coletivo que deixará muita depressão e outros problemas emocionais. Deixei de assistir aos noticiários da mesma porque nada posso fazer e nem sei como ajudar, a não ser ficar recluso em minha casa. Leio e assisto filmes. Procuro ser criativo. As notícias que acompanho são através do JC, porém, nem todas. Se eu me angustiar sobre o cumprimento da quarentena nada alterará sua duração. Não aumentará e nem diminuirá. Só me fará mal. Afinal, o que significam 20, 30 ou 40 dias na ordem do tempo? Nada.
E para a vida? Também nada! Lembremo-nos de que já estamos no mês 5 do ano que tem 12. A certeza que nós temos é a que após o término desta quarentena e de outras, que infelizmente poderão vir, que nossos filhos e netos retornarão correndo e alegres às escolas que continuam nos mesmos lugares, com os mesmos professores e amiguinhos. E os nossos filhos retornarão ao nosso lar, sorridentes, felizes e com boas noticias. Também a do retorno dos comerciários e outros empregados ao trabalho e à rotina.
Natural e indiscutivelmente muitos problemas econômicos advirão após esta pandemia da Covid-19, mas os bons e honestos brasileiros haverão de minimizá-los com o tempo que não deverá ser muito longo. Em compensação, também muitas lições deixará. Que o homem seja bastante inteligente em aproveitar os ensinamentos deixados pela mesma.